segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Todos os dias, Lucinho  tirava da mochila seu livro já ensebado e começa a ler a mesma passagem que lia há três meses e dois dias. 

No ônibus,  todos dormindo, ninguém prestava atenção naquele jovem magrelo e branco,  que mais parecia saído de um mergulho num balde de tinta.

tres meses e dois dias lia a mesma passagem do mesmo livro,  quase sempre no mesmo lugar,  na mesma linha de ônibus.  Pela manhã,  era cheio,  mas conseguia ir sentado; na volta pra casa, vinha de pé,  segurando seu livro com uma mão e lendo as mesmas páginas.

No ir-e-vir, ninguém sequer se notava.  Lucinho estava lá,  lendo o mesmo trecho. Quando José sentou ao seu lado, pela manhã, depois de uns dias, percebeu que aquele jovem não ia muito adiante.  Aflito,  perguntou:

-Rapaz, você não lê além dessa parte?

-Não, senhor. Se eu passar dessa parte,  perco as figuras. Não sei ler...

José entendeu o porquê. Ficou mais tranquilo. O ônibus estava no horário e não ia se atrasar para o café da manhã na firma.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Tesouro

Um dia, numa ferraria que ficava na Europa, Navratilava estava fazendo metais quando viu que junto às moedas que tinha recebido na sua última venda, tinha um papel. Quando abriu, viu que era um mapa, então disse:
—Paiiii! Vem ver!
Então, o pai correu rapidamente e falou:
—O quê? Um mapa?
—Sim, pai.
—É, pela cor é do século 16. O século retrasado. Tem um tesouro marcado nele!
—Então vamos pegá-lo!
—Mas precisamos de tripulação.
Assim, após muitos dias recrutando a tripulação, começaram a viagem.
Um dos dias em que houve uma tempestade o barco naufragou, mas sorte que os destroços encalharam numa ilhazinha habitada e lá concertaram a galera e seguiram viagem com metade da tripulação.
Então, viram um barco pirata que começou a atirar. De repente, o pai de Navratilava atirou com um canhão que destruiu o barco pirata e seguiram viagem. Só que não esperavam que o pirata fugisse.
Após grandes tempestades, chegaram à ilha. Assim, seguiram o mapa, acharam o grande xis no final da caverna, cavaram e acharam o tesouro. Depois, saíram da caverna e viram aquele pirata que falou:
—Esse tesouro me pertence!
Em seguida, o pirata puxou a espada, lutou contra Navratilava e ele caiu ao mar.
Em terra firme, dividiram as riquezas e Navratilava e o seu pai realizaram o seu sonho, fazer uma enorme ferraria.
Navratilava trabalhou, fez sua própria casa, se casou e teve dois filhos.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt (2013)

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados 
à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo.  Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Miniconto

Ela tinha os olhos azul-oceano.

—Não mergulhe em mim, disse, me alertando.

Já era tarde demais.

Miniconto

Pedro trancou sua porta e viu o tempo passar. Envelheceu em sua mente, só.

Reabriu a porta, olhou para fora, fechou-a. A solidão era um bem maior do que a convivência humana.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A segunda maior nação comunista do mundo

Quando a Índia se tornou independente, em 1947, seu governo teve duas possibilidades de escolha: ou se alinhava ao bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos, ou ficava ao lado da antiga União Soviética, tornando-se comunista. O partido vencedor das eleições, de cunho marxista, optou pela aproximação à URSS. Durante cerca de 40 anos, as políticas públicas indianas estiveram voltadas para o socialismo, o Estado interferindo ativamente na economia e na cadeia de produção, e os frutos que se colheram dessas décadas, segundo historiadores, foram, basicamente, a transformação da Índia em potência atômica e a construção dos Institutos de Tecnologia (baseados no MIT). Hoje, a Índia busca mudar sua estrutura social através do investimento em educação básica, pois os Institutos garantem a boa formação superior dos indianos, e o governo não regula a economia como antes.


Não é a Índia, porém, o tema deste texto. Já não tendo mais orientação socialista, o país asiático perdeu o posto de segundo maior país comunista do mundo para outra potência ascendente. E qual seria essa nação? O Brasil. Com a drástica guinada indiana, cabe a nós a medalha de prata nessa corrida sem disputa. Com a China em primeiro (comunista-capitalista), dificilmente chegaremos ao topo – o que, para os brasileiros, é uma vergonha, pois não apreciamos em nada o sabor do segundo degrau do pódio.


E como podemos dizer que não somos comunistas? As características fundamentais da nossa nação mostram um socialismo que daria inveja a Lênin: 

->Assistencialismo do Estado: o Brasil se caracteriza, cada vez mais, como um país assistencialista, no qual trabalho não é a razão da renda, ao contrário, o simples fato de estar abaixo da linha da pobreza já garante um benefício. Distribuição de renda, diriam alguns, porém uma distribuição de renda sem contrapartida (crianças na escola é obrigação de qualquer país, capitalista ou comunista) nada mais é do que ajuda da máquina governamental.

->Monopólio de mercado: As quatro maiores montadoras de automóveis no Brasil dominam cerca de 65% do mercado; o número de instituições bancárias diminui de tempos em tempos, criando grandes conglomerados financeiros; até um canal de televisão detém um monopólio da audiência, de certa forma. Embora na URSS o monopólio ficasse a cargo do governo totalmente, fica claro que, no Brasil, a situação está apenas em outras mãos.

->Monopólio governamental em determinadas áreas: apesar das privatizações feitas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo brasileiro ainda possui monopólio em pontos considerados estratégicos: organização da malha ferroviária (algo que a presidente tenta mudar), combustíveis, correspondências, infraestrutura portuária... E se tudo fosse vendido? Talvez tivéssemos magnatas como na Rússia, mas o Estado deixaria de agir como empresário.

->Intromissão do Estado: subida do dólar, aumento do preço da soja, criação de uma agência governamental de seguros para agir no mercado, criação de uma agência nacional de banda larga para fomentar a melhora e distribuição do serviço, uso dos bancos públicos para baixa de juros... A tão decantada autorregulação do mercado não existe no Brasil.

->Freio na concorrência externa: mesmo sendo estrangeiras, as montadoras de carros gozam de um protecionismo nacional ferrenho; nossos empresários recebem proteção do governo para uma indústria incapaz de concorrer de igual para igual com as estrangeiras; os agricultores têm sua produção comprada e estocada em caso de queda de preços no exterior.

Podemos ser o segundo maior país HOJE, mas todas essas ideias já vêm de longa data em nossa terra tupiniquim: Dom Pedro II já tomava atitudes protecionistas (como aumentar a emissão de papel-moeda para não quebrar bancos públicos mal gerenciados, fechar a concorrência pública a alguns, transformar bens privados em públicos).


Quem diria que o Brasil é comunista há tanto tempo? Eis um título que podemos pleitear: a nação socialista mais antiga da América. Nada de segundo maior. Mas, pelo andar da carruagem, não demora muito para sermos os primeiros... Sem protecionismo dos outros, é claro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um Sonho de Simplicidade, de Rubem Braga (do livro A Traição das Elegantes)

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?


Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.


A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.


Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.


Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?


Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo. mas deixasse a alma sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fragmento 2

Olhei o céu lindo naquele fim de tarde e me lembrei de você. Tudo o que se apegava a mim, naquele momento, era a poeira que vinha da janela. A tarde acabava, assim como o que sentia pela vida lá fora. Sempre odiei céu vermelho, pensei, ainda mais quando sou eu que pinto a cor mais escarlate possível.

Fragmento 1

“A dor de um coração partido.” Foi isso que ele disse quando a viu pegar o metrô pela última vez naquela manhã de quinta-feira. “Engraçado como dizemos coração partido, mas o que sente é o cérebro, né?”, ponderou um rapaz ao ouvir a frase pronunciada e teve vontade de jogá-lo nos trilhos. Bebeu o último gole de coca-cola já quente e voltou a andar. Mais uma vez, estava sozinho. A solidão essência do humano. Não gostava, mas sempre que bebia uma coca melhorava.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Humanidade


O primeiro registro de que se tem notícia foi numa noite nublada no Cairo: o choro e gritos que se ouviam eram da mãe e não do bebê. Após quase nove meses de espera, o que saía de seu ventre era nada. As ultrassonografias, exames, análises mostravam um feto perfeito, saudável, menino, como era a esperança dos pais. Mas, naquele momento de nascimento e luz, o que se via era a ausência de qualquer coisa. A mãe gritava no desespero de quem perde uma vida que não a sua, e os médicos, alterados e nervosos, fizeram um corte na altura do ventre da mulher para encontrarem seu útero vazio. Viam, à sua frente, a barriga de grávida murchar. O pai gritava palavras de ordem e a mãe já tinha desmaiado. Foi assim que tudo começou.

Os jornais locais não deram crédito a essa história bizarra, que mais parecia uma gravidez psicológica, mesmo com todas as provas. Em outro continente, porém, os chineses começaram a experimentar em profusão, pela quantidade de pessoas, fenômenos semelhantes. E, em semanas, havia registros médicos espalhados por todas as partes do mundo. Cientistas europeus e americanos decidiram estudar os casos e as mulheres, tudo em vão. Não viam ligações lógicas, possíveis, aceitáveis ou científicas para essas ocorrências. E, agora, a explosão de falta de bebês era assustadora. Não se sabia o que ou como fazer. Mulheres evitavam engravidar e as grávidas choravam com medo e terror do que viria. Até os homens, sempre práticos e diretos, pareciam assustados.

Com os anos, o que parecia uma doença se tornou a regra e, então, nenhuma mulher na Terra recebia seus rebentos. Não engravidavam com medo, ou, quando ocorria, viviam numa tristeza até o momento do parto, já que tentativas de aborto encontravam o ventre vazio. Repentinamente, a humanidade viu seu número estagnado e, por incrível que pudesse parecer, diminuindo. Os primeiros a sofrerem as consequências foram países com a população reduzida, com a extinção de seus povos e, em algumas décadas, o humano tornou-se uma espécie ameaçada pela falta de nascimentos. Após mais de um século sem renovação, os últimos seres humanos estavam no limite de sua existência, perguntando-se, na sua curiosidade inata, o que tinha acontecido. Nem a morte trouxe uma resposta.