sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um Sonho de Simplicidade, de Rubem Braga (do livro A Traição das Elegantes)

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?


Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.


A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.


Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.


Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?


Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo. mas deixasse a alma sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fragmento 2

Olhei o céu lindo naquele fim de tarde e me lembrei de você. Tudo o que se apegava a mim, naquele momento, era a poeira que vinha da janela. A tarde acabava, assim como o que sentia pela vida lá fora. Sempre odiei céu vermelho, pensei, ainda mais quando sou eu que pinto a cor mais escarlate possível.

Fragmento 1

“A dor de um coração partido.” Foi isso que ele disse quando a viu pegar o metrô pela última vez naquela manhã de quinta-feira. “Engraçado como dizemos coração partido, mas o que sente é o cérebro, né?”, ponderou um rapaz ao ouvir a frase pronunciada e teve vontade de jogá-lo nos trilhos. Bebeu o último gole de coca-cola já quente e voltou a andar. Mais uma vez, estava sozinho. A solidão essência do humano. Não gostava, mas sempre que bebia uma coca melhorava.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Humanidade


O primeiro registro de que se tem notícia foi numa noite nublada no Cairo: o choro e gritos que se ouviam eram da mãe e não do bebê. Após quase nove meses de espera, o que saía de seu ventre era nada. As ultrassonografias, exames, análises mostravam um feto perfeito, saudável, menino, como era a esperança dos pais. Mas, naquele momento de nascimento e luz, o que se via era a ausência de qualquer coisa. A mãe gritava no desespero de quem perde uma vida que não a sua, e os médicos, alterados e nervosos, fizeram um corte na altura do ventre da mulher para encontrarem seu útero vazio. Viam, à sua frente, a barriga de grávida murchar. O pai gritava palavras de ordem e a mãe já tinha desmaiado. Foi assim que tudo começou.

Os jornais locais não deram crédito a essa história bizarra, que mais parecia uma gravidez psicológica, mesmo com todas as provas. Em outro continente, porém, os chineses começaram a experimentar em profusão, pela quantidade de pessoas, fenômenos semelhantes. E, em semanas, havia registros médicos espalhados por todas as partes do mundo. Cientistas europeus e americanos decidiram estudar os casos e as mulheres, tudo em vão. Não viam ligações lógicas, possíveis, aceitáveis ou científicas para essas ocorrências. E, agora, a explosão de falta de bebês era assustadora. Não se sabia o que ou como fazer. Mulheres evitavam engravidar e as grávidas choravam com medo e terror do que viria. Até os homens, sempre práticos e diretos, pareciam assustados.

Com os anos, o que parecia uma doença se tornou a regra e, então, nenhuma mulher na Terra recebia seus rebentos. Não engravidavam com medo, ou, quando ocorria, viviam numa tristeza até o momento do parto, já que tentativas de aborto encontravam o ventre vazio. Repentinamente, a humanidade viu seu número estagnado e, por incrível que pudesse parecer, diminuindo. Os primeiros a sofrerem as consequências foram países com a população reduzida, com a extinção de seus povos e, em algumas décadas, o humano tornou-se uma espécie ameaçada pela falta de nascimentos. Após mais de um século sem renovação, os últimos seres humanos estavam no limite de sua existência, perguntando-se, na sua curiosidade inata, o que tinha acontecido. Nem a morte trouxe uma resposta.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

velhos clichês


Pra que brincar se ninguém joga com você?
Por que chorar se ninguém seca sua lágrima?
Por que sorrir se ninguém divide com você?
Por que andar se não se chega a lugar nenhum?
Por que pensar se não se fala?
Pra que comprar se nada é eterno?
Pra que sentir se o coração para?
Por que ouvir se se esquece?
Por que acordar se o dia sempre termina?
Pra que viver se se morre?

Pra quê?
Por quê?

Não sei. Por mais clichê e piegas que possa parecer.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Numa sexta à noite, percebi uma linda menina sentada a algumas mesas longe de mim no bar. Fiquei olhando pra ela quase a noite toda e, quando já ia tomar minha atitude, o garçom trouxe um guardanapo com algumas frases escritas com lápis de olho:

“Não tenho vida social ativa.
Não tenho perfil em redes sociais na internet.
Não tenho carro novo.
Não tenho um bom emprego.
Enfim, não tenho nada.
Não tenho nem a mim mesma...”

Me levantei e fui embora. Imagina se eu ia querer ficar com alguém que não tem perfil na internet? Jamais.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Depois de anos sofrendo em silêncio, um grupo de homens resolveu fundar a AMT: associação de maridos traídos. Logo ela se espalhou pelo mundo. Numa dessas reuniões, dois novos membros aparecem:

Olá, meu nome é Bento, mas me chamam de Bentinho ou Casmurro. Tô nessa reunião hoje porque... bem... vocês sabem. Ela é uma linda mulher, mas a puta me traiu com meu melhor amigo.
 Ainda não superei isso. Parece que foram séculos, sabe? Mas eu continuo sentindo isso aqui dentro. No meu coração.
Até um filho ela fez com ele. Vaca. Ele não é culpado: ela tem uns olhos que cativam qualquer mortal.
Não quero mais ver essa mulher nem pintada de ouro. Já a mandei pra longe. Agora só quero viver com essa dor. Eu e ela. A dor, claro.
Obrigado por me ouvirem, amigos.

Ok, Bento. Aplausos pra ele. O próximo da lista é... Charles Bovary... por favor, venha até o microfone.

sábado, 7 de agosto de 2010

POXA, LEONARDO, VOCÊ QUEBROU MEU COPO DE BUENOS AIRES!

Já é possível perceber, leitor, pelas letras colocadas nessa frase acima, que Leonardo acaba de fazer uma besteira. Não sendo a única, nem a recente solitária, ele está, mais uma vez, à mercê do ódio que lhe martela a alma e a cabeça.

EU GOSTAVA TANTO DESSE COPO! SÓ DEUS SABE QUANDO VAMOS À ARGENTINA DE NOVO,
gritou Angélica, não histérica, mas odiosa.

Leonardo, sentindo o peso dos dias e dos anos sobre seus ombros, pulou com os dois pés sobre os cacos, cortado suas solas e urrando de dor. Caiu.

LEONARDO! MEU DEUS!

No chão e esvaindo de sangue, Leonardo parecia feliz. Foi ficando pálido até fechar os olhos enquanto Angélica gritava, mais uma vez, sem saber o que fazer.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Estrelas no céu

Mãe, aquela luz é um avião?


Não, filha, é uma estrela!


Que que é isso, estrela? Não sei o que é.


Ô, minha linda, estrela é o que gente se torna quando não mora mais aqui. Uma luz pra guiar que ficou, entendeu?


Então papai é uma estrela?


Sim, filha, disse a mãe já com lágrimas nos olhos, papai é uma estrela.



Dois anos depois, Renatinha viu mais uma estrela se acender no céu. Foi a única lembrança que lhe restou depois de ter toda a sua vida queimada enquanto brincava no parquinho com a amiga da escola.

domingo, 11 de julho de 2010

Gostava de ouvir os carros passando pela rua na madrugada. Fazia com que se sentisse viva. Àquela hora da madrugada, pessoas iam e vinham, de algum lugar pra algum lugar. A solidão não era para todos. Mas era para ela. O último copo de vinho tinto também era a senha. Não era hora de dormir, mas de tomar calmantes. Tomou seus quatro de costume. Deitou-se. Acordou às sete e quinze com o filho chamando, desesperado. Estavam atrasados. O marido nervoso sem café. Os filhos confusos e gritando. O cachorro latindo de fome. Os vizinhos fazendo vitamina. É. Estava mesmo viva. E não estava só.