sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Por aí pelo Rio...

Olá a todos. Espero que tenham gostado do texto anterior. Foi uma tentativa de conto... sabe como é... às vezes sai, às vezes não sai... andava meio enrolado, estava sem inspiração, porém, como já disse, a cidade anda cada vez mais pintada por artistas muito bons. Tenho só que andar com a câmera mais vezes...
Selecionei duas fotos que tirei há umas duas semanas, durante a primavera dos livros, no Museu da República. Dêem uma olhada e digam o que acharam.






Tirada em frente ao Museu da República, no Catete, na parede de uma escola. Traços finos e uma bela composição de cores.





Na mesma parede da mesma escola, só que do outro lado do portão. Parece uma dançarina pra mim, não?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Hoje não

Ela colocou o dedo indicador sobre sua boca e disse “hoje não”. Era o primeiro beijo que negava a ele em dez meses e meio de relação. Olhava para ele com aquele ar de depressão falsa que aparece quando tudo ao redor está chato e sem razão. Num dia que prometia ser ótimo, estavam os dois, ali, parados, como estátuas. Ele ávido por um único beijo. Ela, mais do que nunca, exercitava a arte das mulheres de serem desejadas sem fazer força alguma. “Que merda de dia. Merda de vida. Merda de homem que arrumei”. Depois de um ônibus lotado, abafado porque as pessoas nem sequer abrem as janelas em dias de chuva, ela estava frente a frente com o grande amor de sua vida e, incrivelmente, negava-lhe um único e mísero beijo. “Quer saber? Vou dar no pé”, Júlia pensava sem fazer. Mesmo que isso não significasse nada. Mas preferia agir assim a quando o fazia sem pensar. Fora agindo assim que terminou onde estava e com quem estava. Embora Henrique fosse um homem atraente, ela não dava a mínima para isso, clichês ou modas. Ligava apenas para o que queria fazer. E Henrique também. E foi justamente por isso que pôs sua mão direita sobre o seio direito de Júlia. “Que porra é essa?? Tá achando que sou o quê? Uma qualquer?” Depois de dez meses e meio, não entendia porque aquela mulher atraente lhe negava um toque que já fizera milhares de vezes antes. Até mesmo quando se encontraram na boate pela segunda vez. “Você acha que é só chegar e pronto?? E meus sentimentos?” Os sentimentos de Júlia, naquele momento, eram um misto de raiva com nojo daquele homem na sua frente. Até faziam com que ela pensasse nas pessoas daquele maldito ônibus que pega todo o dia, do trabalho para casa. Asquerosas. Nojentas. Fedidas. E que só pensavam em sexo. Não que não pensasse nisso, mas não pensava nisso 24 horas por dia. E eles, só pelo olhar, já a comiam, de cima a baixo. “O que você quer, afinal? Conversar sobre nossa relação ou transar?” Henrique não respondeu. Ou por dúvida ou por educação. Aquela mulher era, como ele mesmo dizia, gostosa. Uma mulher que todo o homem queria ter na cama. Mas depois de dois meses de relação, começou a perceber que as coisas não andavam mais as mesmas e que até as transas mudavam. “Não adianta se explicar, seu safado! Você acha que sou uma coisa! Um objeto!” Toda essa negação só fazia a vontade de Henrique aumentar ainda mais. “Se acha que vim aqui para dar para você está muito enganado. Eu quero conversar!” Henrique, como bom homem, calou-se. E esperou. Pacientemente. Olhando para aquele homem, Júlia sentia repulsa, nojo. Queria sair o mais rapidamente dali. “Parece que você me achou na rua. Largada! Mas não sou mulher assim!” Lembrava-se do que ouvia. As mulheres que gostavam de apanhar dos maridos. Dos choros intermitentes das que passavam anos com homens que não lhe davam o mínimo valor. E o pior: lembrava-se da merda de vida que tinha trabalhando como caixa de uma loja pequena numa cidade suja e mal cheirosa. Do movimento pendular que fazia todo o dia. De quanto tempo passava em casa. Do patrão sujo e feio que achava que ela tinha tesão por ele. Voltou a olhar para aquele homem que estava ali, parado. Silencioso. Sem mover um músculo. Como podia? Como podia estar naquele buraco com ele? O que ele era? O que fazia? Sentiria angústias também? Foi então que pensou novamente: “hoje não”. E hoje seria não. Até o fim. Estava determinada a acabar com tudo. De uma vez só. Sem volta. “Ei. Vai ficar calado?” Perguntou ao homem. Ele não disse uma única letra. Pensou no que estaria passando na cabeça daquela criatura. Realmente os homens eram estranhos. Olhou pela janela. Chovia ainda mais. Era um dia chato. Não se lembrava de qual era, mas tinha a plena certeza de que não era dia da semana. Estava sem trabalhar. Já não tinha nem noção das horas. Não tinha noção de nada. Neste momento, não sabia se estava deprimida ou chateada. E tudo o que via, além das gotas de chuva, era aquele homem que estava parado à sua frente. Não pensava nela? Achava que ela era uma mísera máquina de sexo? Depois de 10 meses e meio, já não tinha certeza. E isso só a deixava ainda mais deprimida. “O que você quer, porra? Transar? Só pensa nisso?” Começou a gritar olhando para ele. “Hoje não... hoje não, porra. Não quero!” Ele a olhava, sem se pronunciar. Como um homem deveria fazer. “Você não me ama! Você só me usa! Odeio essa merda de vida! Odeio essa merda de trabalho! Odeio você, porra!” berrava. “Henrique, te odeio!” Quando pronunciou a última palavra, começou a chorar. Um choro estranho. Um choro diferente. Um choro sofrido e cansado, como se todos os pesos de sua infeliz vida estivessem sufocando. “Te odeio, porra! Desgraçado! Você não é nada!” E mais lágrimas caíam de seus olhos já vermelhos. Quando a décima-quinta lágrima caiu, Henrique a abraçou. Ela, sem forças ou com vontade, deixou-se abraçar. “Henrique... Henrique...” soluçava, impotente. Henrique a beijou. Mais de uma vez. Deixou-a nua. E transaram. Henrique continuou em silêncio enquanto ela falava baixo, em tom de murmúrio “odeio essa vida... odeio...” Até que o quarto de motel ficou em silêncio. Júlia deitada sobre os lençóis e Henrique assistindo televisão. “Você tem que fazer isso mais vezes. Foi uma ótima transa”, disse, finalmente, Henrique. Júlia deu um curto sorriso escondido no canto da boca. Realmente havia sido uma ótima transa. Talvez devesse fazer isso mais vezes.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

"Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?"


(Fernando Pessoa como Álvaro de Campos)



terça-feira, 11 de novembro de 2008

o rio de janeiro continua...

Não gosto de ficar falando sobre coisas que já estão batidas ou repetidas, mas desta vez não tem jeito. As fotos que coloco abaixo foram tiradas do meu celular e não vai ter pergunta sobre onde são. São da Linha Vermelha. Observe como o trânsito anda bem:










Não foi carro quebrado ou acidente. Menos mal? Mais adiante, além do carro prata acima, o primeiro da fila, estava acontecendo um tiroteio entre traficantes e policiais. E, mesmo morando na grande área urbana do Rio, esse foi apenas o meu segundo. Sim, porque só conto os que eu passei no meio. E esse foi um deles. Bem no meio. Os outros, ouvidos, comentados, vistos na TV nem fazem mais conta...

Não sei você, mas eu acho que não tem mais jeito. É. Não tem mais jeito. E quer saber? Acho que os grandões já se deram conta, mas não fazem alarde para não criar o que os filmes americanos chamam de pânico em massa. E aqueles que podem fogem para algum lugar que ainda é pouco afetado (mas, um dia, chega lá...) para tentar correr. Quem não pode, se sacode. E vai vivendo... levando a vida aqui, desviando de tiro ali... tudo na boa, porque a cidade é linda e maravilhosa. Mas também se esquecem que é corrupta, degradada, agonizante, decadente...

O que vale no fim das contas é o: "mas que isso, meu chapa? Vai um chopp para esquecer?" De chopp em chopp, vai se afogando uma cidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008


Mulheres sem rosto... Mas com bela arte... Nas ruas do Rio de Janeiro, uma ótima amostra de arte mais que atual.

sábado, 18 de outubro de 2008

made in...

O povo do Brasil sempre gostou de coisas que vêm de fora: desde de música até filmes, sempre importa as coisas que vêm de algum lugar que fique além de nossas fronteiras geográficas, políticas, sociais e culturais. Isso vem do passado, com os índios tupis ficando na costa, ficou mais fácil para qualquer estrangeiro entrar no que nem era Brasil ainda. Fato explicável: enquanto os índios mais agressivos foram empurrados para dentro do território pelas guerras entre as tribos, os mais pacatos e sociáveis ficaram na costa. O que aconteceria se fosse o contrário? Também me pergunto. Mas a questão é que os tupis moravam na costa e eram mais "gentis" com quem chegava por ali. Talvez venha daí nossa queda por tudo que é além-fronteira.

O pior é que estamos, hoje em dia, importando sem qualquer pudor. Antes eram trocas por espelhos e bugigangas; hoje são músicas horríveis, filmes que nos agridem de tão estúpidos, modas sem nexo, entre outras coisas. Uma dessas outras coisas é a mídia louca. Em alguns países lá fora, a mídia ataca buscando notícias a qualquer preço, furos incríveis, histórias que tragam atenção; pois aqui no Brasil isso também foi importado. Durante esta semana, houve o mais longo seqüestro televisionado do estado de São Paulo. Infelizmente o desfecho foi triste. Sem querer tocar na revolta dessa confusão toda, escolho tocar na mais recente importação.

A mídia, como sempre louca por uma notícia exclusiva, simplesmente se intromete no meio do ocorrido entrevistando o seqüestrador ao vivo. Um programa de tv entrevista um homem que mantinha como refém uma menina de quinze anos. Não sendo bastante esse absurdo, a apresentadora (Sônia Abrão) dava dicas para o rapaz sair de lá, dizendo que era um bom menino. E depois disso, vários outros programas criticaram a atitude bizarra dessa mulher; nada mais justo, se não tivesse todas suas câmeras focalizando o interior da âmbulancia com a menina baleada dentro. Afinal, é o sujo falando do mal-lavado.

Até onde pode ir a mídia buscando essa incessante notícia exclusiva? Até que ponto nós, pessoas que assistimos, ouvimos, lemos, temos culpa nisso? A abertura política ocorrida há quase duas décadas proporcionou um nó tão frouxo que está quase soltando. E enquanto nós estamos aqui, vendo, ouvindo, lendo, escutando todo esse sensacionalismo barato em busca de mais dinheiro em anúncios, mais câmeras focalizam o absurdo na busca de mais audiência. Depois do caso da menina Isabela, o horror só trocou de canal e de nome; toda a exploração barata continuou a mesma.

Acho que só temos uma opção: mandar essa importação chinfrim de volta, alegando defeito de fabricação. Isso pode dar errado porque podem mandar uns repórteres exclusivos com moto-link para cobrir a devolução...









Mais um assassinato na guerra pela terra. Já lá se vão 22 anos e, por incrível que pareça, os mandantes NUNCA foram presos. Conheça a história do padre Josimo, morto por ajudar um povo pobre a se organizar contra quem tem o poder. Artigo sobre 20 anos de sua morte aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Rosa dos Ventos


O vício se alastra noite dentro
e a cidade se rende ao rumor de vozes
Todavia não era mais este o tempo sombrio
em que cada um se fecha dentro da sua dor
ou finge sorrir dentro da falsa alegria
Contornado o vazio da memória
apenas os pássaros enlouquecidos buscam agora
o rumo perdido da rosa dos ventos.



Li no blog do Noblat e achei muito bom. Texto de José Vicente Lopes, que nasceu na Cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, a 6 de outubro de 1959, com vivência em São Tomé e Príncipe, Angola, Portugal e Brasil. Reside atualmente na Cidade da Praia.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

errado lugar seu no coisa Cada

Às vezes vejo umas coisas que não entendo. Mas depois passo a entender e elas ficam martelando na cabeça pra sair ou pra serem engolidas como goma de mascar barata que vai se agarrando pela garganta sem querer descer...


Esta é uma daquelas que parecem goma.


Estava eu no ponto de ônibus esperando com várias outras pessoas, entre elas duas mulheres com bolsas de mercado. O maldito coletivo demorava uma vida quando apontou na esquina da rua e todos se agitaram. A boa educação manda que as mulheres devem subir primeiro, ainda mais quando estão com peso. Pois bem. Foi o que fiz. E qual não foi minha surpresa em ter tal ato de educação negado pelas mulheres? Elas diziam: "não, sobe primeiro". De tanto eu insistir, elas subiram. Como a entrada é pela frente, ficaram antes da roleta atravancando o caminho. Pouco depois, fizeram sinal para o motorista e desceram pela mesma porta, sem pagar passagem. Depois eu descobri: quem morava naquela área não paga passagem como espécie de pedágio para a empresa de ônibus.


Esse lance só mostra uma das várias facetas que acontecem todos os dias na região metropolitana do Rio. Devido a um gigantesco (mesmo) efeito cascata que vem desde a década de 70, é quase impossível se passar um dia inteiro nessa região sem ver, pelo menos, alguma coisa erradamente bizarra acontecendo. É claro, óbvio que coisas erradas acontecem em qualquer lugar. Mas estou falando de coisas realmente absurdas. De quem é a culpa? De todos. Como reverter isso? Com todos e muito (mesmo) trabalho e, principalmente, educação. E não é só educação de ABC ou 2 + 2. É a educação de cortesia, de honestidade, de respeito, de gratidão... Talvez depois disso tudo venha a educação formal e aí, e aqui vai uma pitada de esperança na goma, tudo comece a melhorar.


Mas... honestamente? Cada dia que passa fico mais cansado de temperar a goma com esperança e o saquinho de goma vai se esvaziando assim mesmo...


A foto aí abaixo é de uma comunidade que tirei nessas andanças... espero que a faixa esteja certa pra eles e pra gente.




sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Novos Olhares

Olá a todos que acessam o blog, mas não comentam... Sei que estão aí pelo contador... Se continuar nesse silêncio e nessa palestra de mão única, começarei a fazer como o meu amigo Marcos, o dono do blog aí do lado: eu mesmo vou comentar meus posts (mesmo que pareça exercício de insanidade)

Vamos ao que interessa: a minha extensão de conhecimento territorial tem aumentado incrivelmente (não é à toa que já me chamo de Google maps fluminense...), novas coisas e novas vistas têm aparecido para mim. Uma delas é a arte de rua. De onde vim, esse tipo de arte é muito pouco, como que embrionário. Mas na cidade grande, na capital, já é fácil ver isso pelas ruas. Claro que isso não será a tônica das fotos por aqui, mas de vez em quando elas vão aparecer.

Hoje vou colocar um desenho que está na parte de trás de uma banca de jornal, num bairro do Rio de Janeiro. Isso só prova que, hoje em dia, não há mais lugar para arte, não há mais barreiras ou limites para colocar a arte à vista das pessoas. Espero que alguém reconheça o desenho e o lugar e poste algum comentário sobre eles. Se isso não rolar, não tem problema. O lance é curtir as inferências que fizeram da obra...











E aí, o que achou??

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Qual o seu medo?

Devido a alguns acontecimentos, não consegui deixar um post há algum tempo.



Volto com essa pergunta para comentários (espero...): Qual é o seu medo? Pergunta simples e direta, mas que necessita uma boa dose de pensamento para respostas.





Talvez a foto a seguir traga um pouco de inspiração... E fica, também, o desafio. Onde foi tirada?
Apenas a velha ressalva: cuidado, Ícaro...

terça-feira, 8 de julho de 2008

sometimes we don't get what we want... (às vezes não conseguimos o que queremos...)

é... isso acontece às vezes...

e a vida vai passando e nada se vai conseguindo... e cada vez que olhamos pra trás vemos o que vamos deixando pelo caminho, o que vai caindo e o que vamos largando para que tudo fique mais leve... e assim vamos criando as migalhas memoriais para marcar cada caminho que vamos... e não é como João e Maria e não tem mais pássaros: a migalha memorial fica lá, paradinha, pra sempre nos lembrarmos do caminho. e do que aconteceu. e de tudo o que deixamos e largamos...

e o país vai repetindo seus ciclos históricos irritantes, o continente vai se afundando em suas próprias entranhas e o planeta vai cortando as pernas dos aleijados e alimentando os abastados... porque, no fim, nada é como queremos. nem nós mesmos quando as pedras saem de nossas mãos...

eu sei: durante este post várias migalhas minhas caíram... e várias suas... e várias nossas... apenas lembremos: nem sempre...

Obs.: a foto aí embaixo é para lembrar que sempre há luz no túnel... ou no farol...

domingo, 22 de junho de 2008

Linha Vermelha


Após um certo hiato, volto com um texto ficcional. Espero que seja proveitoso...



-esse é o homem, doutor.
-hum... esse é o filho da puta que matou o motoqueiro na linha vermelha?
-esse mesmo.
-onde tu tava com a cabeça, porra?
-o cara anda sem capacete, sai da pista da direita e eu que sou culpado? Fala sério, seu delegado. Só encostei nele. Passar com a roda por cima da cabeça não foi culpa minha...
-ah, não foi? então vai ficar aí no xilindró pelo menos esta noite. Essa porra desse crime não dá cadeia mesmo... mas uma noite tu fica... Pereira, joga o cara na 18.
-que isso, seu delegado! foi sem querer! Já expliquei que foi sem querer!
-eu sei, eu sei... vou te deixar esta noite aí sem querer mesmo.
-porra! Delegado de merda! Me solta, porra!
-leva esse filho da puta, Pereira. Joga na 18 que tá cheia.
-aqui, seu doutor. Olha o que peguei com esse neguinho aqui...
-caralho, Pacheco! Essa maconha toda com esse moleque?
-pro senhor ver... e ainda me disse que tava só fumando...
-fumando, moleque?
-seu doutor, sou consumidor! Não sou traficante! Tava no morro pegando o meu!
-tenho cara de otário? De mané? Seu filho da puta! Minha vontade é enfiar essa maconha pelos teus cornos adentro..
-que isso, doutor! Me libera aí! Sou trabalhador!
-trabalhador é a puta que te pariu! tu acha que um neguinho que nem você, pobre e maconheiro, é trabalhador? Se liga, moleque. Tu não me engana. Traficantezinho de merda...
-que isso, doutor!
-Pacheco, joga essa porra na 05 com o Jeba. Hoje tem.
-o moleque é franzino, doutor... não vai agüentar o Jeba...
-que nada... cedo ou tarde, uma hora agüenta..
-que isso, doutor! Não faz isso comigo! Sou sujeito homem!
-até hoje. Amanhã a gente conversa..
-deixa ligar pra minha mãe, delegado! Por favor...
-isso é coisa de filme americano, seu puto. Joga ele lá, Pacheco!


Assim que Pacheco sumiu pela porta que dava no xilindró, Vanderlei olhou para o relógio na parede descascada, percebeu que ainda faltavam dez horas para terminar seu plantão de doze horas e, soltando gás carbônico com fumaça do cigarro, exclamou para si mesmo e para o mundo:

-porra... tá foda...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

zeit, time, temp: tempo


É engraçado como vemos o tempo e que, com o tempo, a idéia de tempo muda.

No começo, pequenos, não vemos o tempo passar, nem sabemos o que representa um dia, um mês, quiçá um ano.

Aí o tempo passa (sempre ele) e as coisas começam a afinar: percepção de tempo inicia e as idéias vêm chegando...

A escola é o primeiro choque temporal: passar metade do dia nela e, de forma abrangente, mostra como o tempo está marcado pela volta da Terra em torno do sol: todos querem passar de ano.

Já mais cascudo, chega a universidade e o sistema semestral: diminuiu o tempo e aumentou a pressão. ("agora você vai ver o que é bom", dizem)

Quando começa o trabalho, vem a sensação de que o mês é infinito: agora, o pouco parece não dar pra nada, ainda mais quando a disparidade entre dinheiro e tempo é grande e o que era pra ser curto torna-se longo.

Acho que a pior fase é a diária: já se levanta pensando quando se voltará para a cama e a referência mais longa de tempo é de míseras24 horas. Ainda assim, "o dia hoje demorou a passar..."

E depois? A agonia das horas? Ou da hora? É claro que em determinadas situações, a aflição horária já é perceptível, mas digo daquele jeito final, finito, que se alivia: acabou a hora... E o que vem passa a ser os minutos ou os segundos ou nada porque sua hora chegou.

De qualquer maneira, obrigado por gastar algum tempo lendo este post. Espero que sua referência temporal ainda não esteja no...acabou o tempo.

domingo, 1 de junho de 2008

dias da semana...


In Brazil, whatever your crime of choice, Sunday is the day to do it.
(numa tradução livre:
No Brasil, qualquer que seja seu crime de escolha, domingo é o dia para cometê-lo/a.)



pena que às vezes se esquecem disso e cometem todo o dia...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

tijolos d'água


O clima andou meio pesado então decidi escrever umas pequenas fatias de informações acumuladas durante esse tempo. Chamei carinhosamente de tijolos d'água, já que constroem a parede (boa, hein?). Vamos lá.


  • Semana passada, numa fila de espera, ouvi uma conversa entre um homem e uma senhora: ele queixava-se de como o tráfico tinha acabado com sua vida - não tinha paz em casa pois era violento demais onde morava; falou também do desemprego que já o perseguia há dez anos. E, para meu espanto, começou a contar para a senhora um conto de Machado de Assis que falava sobre o que ele tinha passado: o seu emprego tornara-se extinto, como animais e plantas. Contou o conto direitinho e disse que havia aprendido com a filha. O conto se chama Pai contra Mãe (clique aqui para lê-lo) e aborda outros temas ainda recorrentes. O fato é que fiquei surpreso e, ao memso tempo, feliz por ouvir, numa fila, alguém recontar Machado de Assis. Cá entre nós, não é algo que se vê todo o dia... Vale a pergunta, pra você e pra mim: será que isso mostra que ainda tem jeito?


  • Ainda sobre ouvir e reouvir: um comentarista esportivo quase centenário da rádio globo (alguém adivinha??) teceu, domingo: o mal do Brasil é não falar espanhol; li, num conto, a seguinte frase: "coitado, tem o triste destino de ter que falar português" e, ainda, numa crônica lia-se: "Ah se a Holanda tivesse ganhado a guerra no Nordeste e falássemos holandês...". Deixei uma pergunta dessas para meus alunos e ainda vou descobrir a resposta, mas a faço aqui também: se falássemos outra língua (espanhol, inglês, francês), estaríamos melhor? Assunto muito controverso. Pelo menos não passaríamos pela reforma ortográfica... :)


A foto de hoje é uma homenagem ao artista holandês (já que falei da Holanda...) M. C. Escher. A figura lá de cima se chama relativity e inspirou vários artistas e até pensamentos matemáticos e físicos. Como se pode percerber, a gravura mostra como tudo depende do olhar e da perspectiva... tudo é relativo... Se quiser ver mais fotos, só clicar aqui.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Você tem sede de quê?



A foto aí de cima foi tirada hoje (15/05). Infelizmente, não posso dizer onde. Tirei essa foto porque fiquei intrigado com o momento e com os dizeres. Vou descrever o momento e, quem sabe, você vai entender o porquê:

Uma sala de 1 metro por 1 metro, um computador tocando vento no litoral do legião urbana e três pessoas (uma delas eu) em silêncio. Aquele silêncio que causa desconforto total. Silêncio de elevador. Silêncio de quem não quer falar nem um pouco. Fiquei meio desconcertado e tive que forçar o centro gravitacional da minha mente a voltar para o lugar. Ainda bem que voltou. E quando olho para o lado, vejo a inscrição aí de cima. É neste momento que pulo para o terceiro parágrafo para explicar a relação com os dizeres.

Água contaminada. Achei engraçado e irritante, ao mesmo tempo. Parece contraditório? Mas é. Aliás, o local onde eu estava era contraditório. Vamos ao que interessa: engraçado porque tudo ao meu redor parecia estar contaminado por várias doenças: lerdeza, letargia, estagnação, falta de vontade, descomposição social e destruição. E, dentro de um galão d’água, estava a contaminação. A irritação veio com o estar ali. O sentimento de querer sair, querer fugir era flagrante. Mas algumas coisas me amarravam ali... então não tive opção e fiquei.

Fiquei com a seguinte pergunta que queria dividir com você: até onde eu (você) irei (irá) sem contaminação? Sim, porque cada vez mais parece que há buracos em certos locais e momentos que sugam, tragam e nunca mais largam. Eu disse nunca. E vou indo e tentando não me contaminar com tanta coisa que parece inevitável fugir. Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho contamina. E assim a contaminação sai da água e vai para o sangue, músculos, mente...

Espero que não vire um zumbi. Ou um escravo das horas pronto pra bater o ponto e seguir a cartilha. Mas com tanta contaminação e cerco, acho que é inevitável, um dia, eu estar ali, dentro daquele galão, sem ar e afogado pela contaminação e rotina, também me silenciando e ouvindo vento no litoral. Esperando, quem sabe, que o vento leve tudo embora...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Quem quer pão? E mídia?

Já fazia um bom tempo que não andava de ônibus. Não que esse comentário venha de uma veia esnobe, nada disso. Pelo contrário, até: seria ótimo ter um bom sistema de transportes coletivos (trem, ônibus, metrô) que me possibilitasse ir e vir enquanto leio, durmo, escrevo, etc. Mas o caso é que, semana passada, tive que ir ao centro do Rio de ônibus e, conseqüentemente, voltar de ônibus. Nessa volta, enquanto o veículo levava mais de uma hora para percorrer algo em torno de 20 km, pude ouvir várias opiniões, relatos e piadas sobre as mais diferentes coisas: futebol (o predileto), trânsito, ônibus, jogadores, mas um assunto me chamou a atenção: o tão comentado caso Isabella.

Eu sei o que vem à cabeça: putz, até aqui, num blog? Mas não quero abordar esse caso, especificamente, mas o que se tem feito ao redor e com ele. E, para isso, vou falar dos antepassados. Os gregos já tinham essa idéia de espetáculo, mas foram os romanos, a sociedade da qual descende (parcialmente) a sociedade que nos colonizou, que aprimoraram o grande lance: pão e circo para o povo. E é o que anda rolando por aqui há tempos, mas com uma bela pitada de pimenta nesse caso... Enquanto estava de pé naquele coletivo lotado, escutava o trocador dizendo para a passageira: “Aquilo não é pai, é monstro!” e a passageira respondia: “Meu marido disse que ele estava maconhado!”.

Julgamentos à parte, uma pergunta ficou martelando: qual o papel da mídia nesse caso? Sim, já que outras crianças morrem de maneiras mais horrorosas e não se faz nada? E a exposição pública, fica em qual patamar? Basta colocar em vários canais para ver os mais variados analistas dizendo, contradizendo, repetindo, gritando, cuspindo frases sem sentido. Ao lado, um apresentador que diz: “A TV mostra, o povo faz seu julgamento!!” e, em seguida, corta para um cara que veio de Minas Gerais com uma faixa pedindo justiça no Brasil...

E assim, a venda, o comércio e a exposição da morte de uma pequena menina transformam-se de drama familiar a um grande circo midiático que vai ganhando audiência e formatando as mentes para “fazerem seu próprio julgamento” após verem vários clipes com a menina.

Afinal, o que vale agora não mais pão e circo. O que vale é pão e mídia. Pão para comer e mídia para formatar mentes ainda em branco... ou não.



AS FOTOS
A foto do post anterior mostra uma coruja em plena praia da Barra, por incrível que possa parecer. E ela não estava nada tímida. A foto deste post não tem mistério: é uma manhã neblinosa na Base Aérea de Santa Cruz, um belo lugar perto do fim do Rio de Janeiro. Vale uma visita ao hangar do Zeppelin.


sábado, 26 de abril de 2008

O que tem no seu biscoito da sorte?


Outro dia, após comer uma bela refeição no china in box, recebi como de costume um daqueles biscoitos da sorte chineses que você quebra e, dentro, acha um pensamento que traz sorte ou, mais simples ainda, diz a sua sorte.

A minha sorte foi bem interessante e veio a calhar com este blog. Mas, além disso, uma coisa me veio à cabeça: o que tem nos nossos biscoitos da sorte?

Ok, eu sei que disse que não acredito em sorte, mas não estou falando aqui do doce ou da crença: estou falando do que cada um de nós faz todo o dia, de cada biscoito que temos que quebrar, às vezes por querer e às vezes sem querer e de cada momento que, sendo fechado, parece um verdadeiro biscoito chinês. Num momento ele é da sorte, noutro é do azar, em outro da alegria, da preocupação... é tanto esforço pra quebrar um biscoito, pra conseguir abrir a casca que tem horas que nem lemos os papeizinhos que vêm dentro deles, dizendo algo, dando idéias, sugestões...

E o que fazemos com as cascas? Descartamos? Às vezes sim: parecem que não servem pra nada e obviamente jogamos no lixo; outras vezes, carregamos conosco as cascas como exemplos (ou lembranças) da dificuldade daquele biscoito em especial, tão complicado de se quebrar, ou, simplesmente, como forma de nos rancorarmos pelo biscoito quebrado com tanto suor...

Cada um carrega sua caixinha de biscoitos chineses. Alguns têm caixonas até. Mas é fato que todos nós temos uma dessas, mesmo sem querermos. E os papéis de dentro? Jogamos ao vento, errados duas vezes: nem olhamos pra eles e ainda poluímos o que está em volta de nós, com algo que não queremos, porém jogamos ao largo sem preocupação... quem sabe quem aquele papel pode atingir?

Pra finalizar, fica a pergunta que fiquei me fazendo ao escrever este post: será que a casca valeu a quebrada? Isso, só você pode responder sobre seus biscoitos...

Ah, sim, claro, a mensagem que veio no tão agora famoso biscoito: “Ou não comece ou, tendo começado, não desista” (números de série: 17 01 42 26 29 55). Bem a ver, não?


Obs.: A foto do último post é do canal entre a Linha Vermelha e a Ilha do Fundão. Nesse dia, a maré estava alta e com bastante barquinhos...
Segue abaixo uma outra foto, tirada nesta semana. Ficam duas perguntas: 1a.: que praia é essa? 2a.: que pássaro é esse (em pleno Rio de Janeiro!!!)? Aguardo idéias...


sexta-feira, 18 de abril de 2008

eu prometo, tu prometes, ele promete...

Passei esta semana pensando em como explicar o nome do blog. Não era o porquê do nome, já que sei e teria como explicá-lo, mas o que significa. E assim percebi como uma promessa afetou toda a cadeia dinâmica de uma possível construção textual! Assim, baseado em uma penca de questionamentos sobre o que se deve cumprir, veio a pergunta: o que são promessas?

Há pessoas e pessoas e promessas e promessas... repetitivo, não? Pois é. E é assim mesmo: um círculo prometido-vicioso que nunca acaba porque as promessas nunca acabam... e vão se repetindo além... essas são o que chamo de promeSSSas, pela sua duração: os Ss indo além da pronúncia , da paciência e das expectativas possíveis.

Também é fácil achar as promeÇas e, pela ortografia, já dá pra perceber: são aquelas que nunca saem do papel, nunca funcionam, nunca são realizadas, mas sempre (SEMPRE!) estão prontas a serem ditas, ditadas e, pior, prometidas! Agora, honestamente, quem nunca fez uma promeÇa? Das menores, como as de véspera de ano novo, até as gigantescas que constituem uma coisa ainda maior... as promeÇas estão aí pro que der e vier...

Tudo isso pra mostrar como uma promessa no texto inicial me deixou amarrado e criando esperanças no que pudesse aparecer... e como as promessas podem carregar expectativas de algo que pode (ou não pode) acontecer.

Para aqueles que querem a promessa cumprida fica o consolo: nesse post, pelo menos, não fiz nenhuma promessa...

Obs.: a foto aí de baixo foi tirada por mim nesses caminhos por várias cidades... Alguém sabe onde fica??

sábado, 12 de abril de 2008

Começo... meio... fim?

Esta é a primeira postagem de alguma coisa que não sei bem o que é... muito menos o que pode ser... ou o que pode não ser... assim mesmo, está lançada a pedra fundamental entre as paredes.

Ainda não sei a frequência, assuntos ou matérias. Talvez tudo venha do nada ou dos quase 700 kms semanais percorridos por buracos estradados... a questão é mais profunda e virá com o tempo a resposta. Nada muito blasé e muito menos clichê...

Num próximo encontro, pretendo explicar um pouco desse nome... e fazer entender o porquê de algumas coisas estranhas...