sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Por aí pelo Rio...

Olá a todos. Espero que tenham gostado do texto anterior. Foi uma tentativa de conto... sabe como é... às vezes sai, às vezes não sai... andava meio enrolado, estava sem inspiração, porém, como já disse, a cidade anda cada vez mais pintada por artistas muito bons. Tenho só que andar com a câmera mais vezes...
Selecionei duas fotos que tirei há umas duas semanas, durante a primavera dos livros, no Museu da República. Dêem uma olhada e digam o que acharam.






Tirada em frente ao Museu da República, no Catete, na parede de uma escola. Traços finos e uma bela composição de cores.





Na mesma parede da mesma escola, só que do outro lado do portão. Parece uma dançarina pra mim, não?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Hoje não

Ela colocou o dedo indicador sobre sua boca e disse “hoje não”. Era o primeiro beijo que negava a ele em dez meses e meio de relação. Olhava para ele com aquele ar de depressão falsa que aparece quando tudo ao redor está chato e sem razão. Num dia que prometia ser ótimo, estavam os dois, ali, parados, como estátuas. Ele ávido por um único beijo. Ela, mais do que nunca, exercitava a arte das mulheres de serem desejadas sem fazer força alguma. “Que merda de dia. Merda de vida. Merda de homem que arrumei”. Depois de um ônibus lotado, abafado porque as pessoas nem sequer abrem as janelas em dias de chuva, ela estava frente a frente com o grande amor de sua vida e, incrivelmente, negava-lhe um único e mísero beijo. “Quer saber? Vou dar no pé”, Júlia pensava sem fazer. Mesmo que isso não significasse nada. Mas preferia agir assim a quando o fazia sem pensar. Fora agindo assim que terminou onde estava e com quem estava. Embora Henrique fosse um homem atraente, ela não dava a mínima para isso, clichês ou modas. Ligava apenas para o que queria fazer. E Henrique também. E foi justamente por isso que pôs sua mão direita sobre o seio direito de Júlia. “Que porra é essa?? Tá achando que sou o quê? Uma qualquer?” Depois de dez meses e meio, não entendia porque aquela mulher atraente lhe negava um toque que já fizera milhares de vezes antes. Até mesmo quando se encontraram na boate pela segunda vez. “Você acha que é só chegar e pronto?? E meus sentimentos?” Os sentimentos de Júlia, naquele momento, eram um misto de raiva com nojo daquele homem na sua frente. Até faziam com que ela pensasse nas pessoas daquele maldito ônibus que pega todo o dia, do trabalho para casa. Asquerosas. Nojentas. Fedidas. E que só pensavam em sexo. Não que não pensasse nisso, mas não pensava nisso 24 horas por dia. E eles, só pelo olhar, já a comiam, de cima a baixo. “O que você quer, afinal? Conversar sobre nossa relação ou transar?” Henrique não respondeu. Ou por dúvida ou por educação. Aquela mulher era, como ele mesmo dizia, gostosa. Uma mulher que todo o homem queria ter na cama. Mas depois de dois meses de relação, começou a perceber que as coisas não andavam mais as mesmas e que até as transas mudavam. “Não adianta se explicar, seu safado! Você acha que sou uma coisa! Um objeto!” Toda essa negação só fazia a vontade de Henrique aumentar ainda mais. “Se acha que vim aqui para dar para você está muito enganado. Eu quero conversar!” Henrique, como bom homem, calou-se. E esperou. Pacientemente. Olhando para aquele homem, Júlia sentia repulsa, nojo. Queria sair o mais rapidamente dali. “Parece que você me achou na rua. Largada! Mas não sou mulher assim!” Lembrava-se do que ouvia. As mulheres que gostavam de apanhar dos maridos. Dos choros intermitentes das que passavam anos com homens que não lhe davam o mínimo valor. E o pior: lembrava-se da merda de vida que tinha trabalhando como caixa de uma loja pequena numa cidade suja e mal cheirosa. Do movimento pendular que fazia todo o dia. De quanto tempo passava em casa. Do patrão sujo e feio que achava que ela tinha tesão por ele. Voltou a olhar para aquele homem que estava ali, parado. Silencioso. Sem mover um músculo. Como podia? Como podia estar naquele buraco com ele? O que ele era? O que fazia? Sentiria angústias também? Foi então que pensou novamente: “hoje não”. E hoje seria não. Até o fim. Estava determinada a acabar com tudo. De uma vez só. Sem volta. “Ei. Vai ficar calado?” Perguntou ao homem. Ele não disse uma única letra. Pensou no que estaria passando na cabeça daquela criatura. Realmente os homens eram estranhos. Olhou pela janela. Chovia ainda mais. Era um dia chato. Não se lembrava de qual era, mas tinha a plena certeza de que não era dia da semana. Estava sem trabalhar. Já não tinha nem noção das horas. Não tinha noção de nada. Neste momento, não sabia se estava deprimida ou chateada. E tudo o que via, além das gotas de chuva, era aquele homem que estava parado à sua frente. Não pensava nela? Achava que ela era uma mísera máquina de sexo? Depois de 10 meses e meio, já não tinha certeza. E isso só a deixava ainda mais deprimida. “O que você quer, porra? Transar? Só pensa nisso?” Começou a gritar olhando para ele. “Hoje não... hoje não, porra. Não quero!” Ele a olhava, sem se pronunciar. Como um homem deveria fazer. “Você não me ama! Você só me usa! Odeio essa merda de vida! Odeio essa merda de trabalho! Odeio você, porra!” berrava. “Henrique, te odeio!” Quando pronunciou a última palavra, começou a chorar. Um choro estranho. Um choro diferente. Um choro sofrido e cansado, como se todos os pesos de sua infeliz vida estivessem sufocando. “Te odeio, porra! Desgraçado! Você não é nada!” E mais lágrimas caíam de seus olhos já vermelhos. Quando a décima-quinta lágrima caiu, Henrique a abraçou. Ela, sem forças ou com vontade, deixou-se abraçar. “Henrique... Henrique...” soluçava, impotente. Henrique a beijou. Mais de uma vez. Deixou-a nua. E transaram. Henrique continuou em silêncio enquanto ela falava baixo, em tom de murmúrio “odeio essa vida... odeio...” Até que o quarto de motel ficou em silêncio. Júlia deitada sobre os lençóis e Henrique assistindo televisão. “Você tem que fazer isso mais vezes. Foi uma ótima transa”, disse, finalmente, Henrique. Júlia deu um curto sorriso escondido no canto da boca. Realmente havia sido uma ótima transa. Talvez devesse fazer isso mais vezes.