terça-feira, 8 de dezembro de 2009

azul na terra


Depois de juntar seu salário por quatro anos e cinco meses, de deixar de comprar o móvel que a mulher queria, a TV que queria, a geladeira nova que queriam, parte do material para Guilherme em vários anos letivos, um DVD (a nova febre consumista), ele conseguiu comprar um carro. Era um Volkswagen fusca, o primeiro carro entre todos os primeiros carros que se pode escolher, num azul que se confundia com o céu no fim dos dias daquele verão abafado e sem nuvens. A família, totalizando três com ele, ficou em polvorosa. Afinal, nunca tinham tido a possibilidade de ir ao mercado e voltar sem carregar as compras nos braços. Nunca tinham deixado de pegar ônibus para se mover para longe do bairro. Nunca tinha tido um bem material que se locomovia sem necessidade de empurrar. Aquele pedaço de céu sobre rodas era o paraíso na terra.



Toda a tarde, quando Guilherme voltava da aula e ele terminava os afazeres trabalhais, entravam naquele azul e saíam pela rua, dando uma volta no quarteirão. Ainda não podia ir longe porque não tinha prática no volante. Mas Guilherme, ao sentir o vento nos dias abafados, já ficava feliz. E ele, bem, ele se sentia um homem poderoso, provedor e cuidador, como deve ser e como o papel determina. Sempre, sem exceção, ficava com lágrimas somente no olho direito, porque o esquerdo permanecia seco para ver o retrovisor. Coisas que só aquele momento podia dividir.



Com o passar do ano, aquele azul ficou negro, com tempestades de ferrugem; fazia de tudo, mas os tempos, metereológico e cronológico, eram fulminantes: e, pouco a pouco, seu céu foi tomado por nuvens negras, deteriorando-se. Guilherme não sentia mais o vento no rosto e as lágrimas enchiam os pequenos olhos. Fizeram de tudo, mas já estava tomado. Até que, numa também tarde de verão, percebeu que seu azul morrera. E nada poderia fazer. Flocos pela calçada, buracos espalhados, como se uma doença incurável tivesse contaminado todo seu corpo metálico. Seu filho chorava, sua mulher chorava e ele tentou se controlar. Naquele instante, com sua simplicidade, olhando para seu mais precioso sonho e para sua família, percebeu que tudo é finito. E que o tempo é o encarregado a nos mostrar a finitude. Até mesmo a finitude dos sonhos. Então chorou pelos dois olhos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

miniconto

às vésperas da morte, me perguntaram:

- como é lutar contra o invencível?

ao que respondi

- é ter sempre a vitória de perder.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Alberto Caeiro

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Preparação para as Olimpíadas

O Rio de Janeiro continua se preparando bem para as Olimpíadas de 2016. Veja só os locais de pólo aquático já prontos:













Todas as fotos foram tiradas no Aterro do Flamengo, com o Pão de Açúcar ao fundo. Consegui fugir antes que algum mosquito da dengue me pegasse... Mas ficaram muito bons os lugares para os esportes aquáticos, hein??

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ressentido Passivo


Outro dia, ouvi no rádio o comentarista Luciano Pires falando sobre o ressentido passivo; como assim, ressentido passivo? Como já disseram antes, entre as duas formas de se habitar na América do Sul, essa é uma delas. A outra é a indignação em relação às coisas ao redor. Pois bem, a passividade que anda rolando por aqui pelo nosso país me faz acreditar que a opção tem sido a primeira, uma passividade que vem pegajosa. Mas e o ressentimento?

Esse é o sentimento daquele que já tentou de tudo, já foi indignado, já se incomodou, mas resolveu desistir da indignação e partir para outro lado, o lado da passividade com aquele sentimento de derrota, de não dá mais. Aí vem o ressentir, corroendo as últimas esperanças e fazendo cair na categoria do inventor.

Até está certo: como disse meu amigo Marcos, democracia, no Brasil, é ter o direito de falar, mas sem (sem mesmo) ser ouvido. Então se grita até ficar rouco. Até ficar sem voz. Até se perder as esperanças. E o que resta? É o ressentimento. Cada dia mais re-sentido. Re-sentido e engessando rumo à imobilidade.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Variações sobre um mesmo tema...

Várias fotos de vários lugares do Rio... Acho que valem a pena:



Nem parece, mas é a Candelária ao fundo.




O Centro visto de cima.




Hangar do Zeppelin num dia chuvoso, em Santa Cruz.




O mesmo morro, dois ângulos: antes de Campo Grande.





O Rio de Janeiro de uma perspectiva da Zona Norte.

domingo, 13 de setembro de 2009

Remédios e afins



Neste domingo murrento, me passou pela cabeça uma ideia que não é muito apreciável, mas não faz diferença, pois o apreciável nestes cantos dos trópicos é algo muito questionável, até mesmo a rima sem querer. É o seguinte: imagine se cada pessoa na esfera terrestre pudesse inventar (como mágica de García Márquez) o medicamento que quisesse? Sim, sim, o remédio que necessitasse para o que precisasse. Sempre. Eu sei, eu sei, não haveria mais doenças no mundo, a população iria explodir, o planeta sofrer, entre outros problemas. Porém não digo apenas remédio para o corpo, mas, também, para a alma e para o espírito. Alguma coisa que curasse esses males de forma a não deixar mais rastros e marcas dentro dos indivíduos que os inventasse.

Eu pensei em dois, já que tive este brilhante entusiasmo curativo:

-insatisfeitozina: remédio eficaz contra a insatisfação causada por vários motivos, atua direto na fonte do problema, aliviando o paciente de maneira quase instantânea. Contra-indicações: pessoas com sensibilidade ao princípio ativo e viciadas em insatisfação.

-socializol: homeopático, este composto pretende resolver, de uma vez por todas, os problemas de sociabilidade que as pessoas apresentam. O tempo máximo para se notar a diferença é de uma semana! Contra-indicações: aqueles que apresentam hiper-sensibilidade no fígado ou veneno demais escorrendo.

De uma vez, dois problemas resolvidos. Se fosse fácil assim... mas não custa tentar e imaginar. Pense nos seus também e faça uma bula. O que pode acontecer, no mínimo, é algum desses laboratórios gigantescos querer patentear o seu remedinho...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Homem é bom?


Sempre concordei com a ideia do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, que diz que o Homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe. Naturista e botânico, Rousseau se dedicou também à natureza e, talvez, venha daí sua visão contrária à sociedade e sua influência.

Pois, nos últimos tempos, tenho pensado de forma diferente: não acho mais que a sociedade corrompe o Homem; hoje, acredito que o Homem já está corrompido e ajuda, ainda mais, a desestruturar a sociedade.

Percebo que as pessoas (especialmente as mais novas) não têm mais a bondade decantada pelo suíço, afinal vejo estar intrínseco o desejo de destruir, ferir, desmontar, desfazer qualquer ponto positivo que se apresente frente a essas pessoas.

Óbvio que não falo isso de todas as pessoas, já que generalizações são um perigo, ainda mais feitas baseadas em observações do cotidiano; mas vejo que grande parte está com essa ideia negativa na mente e ataca sem pensar na bondade que seria peculiar ao ser humano.

Desde destruição de material próprio até prédios e coisas públicas, a ânsia por destruição de coisas suas e dos outros parece, para mim, cada dia mais forte entre os que observo. Mudança? Só vejo em direção a um caminho pior e mais profundo no lado negativo do humano.

Fico na esperança de que esteja errado e as coisas melhorem. Afinal, um dos meus trabalhos é tentar fazer isso. Mas tenho certeza de que, se Rousseau ainda estivesse certo, tudo seria mais fácil no meu trabalho e na sociedade como um todo. Cada dia que passa, torço mais para eu estar errado e o caro Rousseau, certo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Você já se sentiu como o amigo aí da foto?




segunda-feira, 6 de julho de 2009

Do escritor português António Lobo Antunes, na FLIP:

Advérbios são palavras que existem para não serem usadas. Adjetivos, aquelas putas, dizia Cortazar.

domingo, 7 de junho de 2009

Mais algumas fotos

Em Botafogo, algumas imagens marcantes nas paredes e pelas ruas:


No canteiro central da São Clemente, um pedido de paz.



Próximo à estação de metrô de Botafogo, uma menina com rosas dá as boas-vindas... ou o até logo...

sábado, 16 de maio de 2009

O Eterno Descontente

Há momentos na vida em que ser incomodado e desacomodado são quase cruciais para que a roda gire. Atuar empurrado por uma força extra de incômodo faz a vida parecer mais leve e mais limpa quando estão de frente os clichês problemas da vida. Há aqueles que não têm essa força ou acham tudo mais difícil ou simplesmente não se movem: nem pra frente nem pra trás, estagnados. Mas e aqueles que, por ordem galáctica, genética ou de escolha, são sempre incomodados? Desacomodados?

Esses, por experiência analítica, sofrem o peso mortal (exageradamente italiano) do descontentamento. O que acontece é que a energia extra para a roda é tão grande que afoga, cega, perturba e turva. Com isso tudo pelos ombros físico e psicológico, o descontentamento passa a ser um simples traço de caráter ou psicológico que apura e afeta aqueles que sentem a extra-parte da tal força.

Carregar isso não é fácil. Acho até (que me perdoem os acomodados) que esse sentimento corrosivo é muitíssimo pior que o tranqüilo ato de observar sem movimento, estar por estar, ficar no mesmo; cada vez que se questiona, se busca, se quer mais, o desconforto aumenta e faz tudo só piorar.

É possível que isso seja um dado clínico para uma análise psicológica e mereça uma observação mais profunda, porém o descontentamento eterno (como chamei por opção própria) certamente é um sentimento que faz côo os cupins na madeira: carcome por dentro, desmontando o que vê.

A saída? Não sei. (e quem sou eu para dar respostas?). Me lembro de um pensamento de John Lennon que associo com esse sentir tão pesado que diz: “A ignorância é uma espécie de bênção. Se você não sabe, não existe dor.” Quanto menos se sabe, menos se quer, menos se busca, se procura, se consome, se reflete. Até conheço alguns que fazem essa opção. Democracia total.

O descontentamento descontente. É isso. Obrigado por ter chegado até aqui. E cuidado com perguntas sem fim.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Nada com belas imagens criadas por artistas que andam por aí... como todos nós...

domingo, 26 de abril de 2009

O Botão Vermelho

Olá! Ainda não consegui terminar todo o conto anterior, mas escrevi um novo que trago hoje. Chama-se "O Botão Vermelho". Os comentários serão, como sempre, bem-vindos.

Acordou com umas batidas no vidro. Levou um susto, claro. Ao olhar em volta, Júlio não entendeu o que estava acontecendo e onde estava. Havia chegado a sua casa na madrugada, meio alto por causa das comemorações. Mal teve tempo de tirar a roupa toda: ficou com as calças de sarja e a camisa social, as meias pretas combinando com as calças de corte moderno. Quando se lembrou disso, olhou para suas roupas e viu que estava vestindo umas calças brancas de hospital e camisa de mangas longas, também de hospital. Nas duas mangas, na altura do cotovelo, havia a impressão de um nome: ENAM. “O que é isso? Onde estou? Quem é essa gente?”, perguntava-se mentalmente. Apenas se lembrava de se ter deitado, ainda tonto. E de toda a festa. Agora acordava ali, numa cama de aço inoxidável, colchão preso e duro, travesseiro amarrado à cama e uma privada também de aço. “Será uma experiência científica?”

Não entendia como foi parar ali, porque estava ali e, principalmente, para que estava ali. Onde estava Amanda? Ainda se lembrava dela: estava deitada no seu lado da cama quando chegou. Certamente tinha ficado nervosa por ele ter chegado tão tarde e ele sabia que a enfrentaria quando acordasse; a culpa era dela, de qualquer maneira, afinal não tinha chamado ninguém para morar com ele naquele momento da vida. Se ela quis ir, ela que agüente, foi o que disseram seus amigos.

Depois daqueles cinco segundos de atividade cerebral intensa, olhou para o lugar de onde viera o barulho da batida e pôde perceber algo bizarro: havia, olhando pelo vidro, mais de cem pessoas falando, gesticulando, gritando, chorando, berrando para ele, mas, incrivelmente, não escutava nada devido ao isolamento acústico. “Meu Deus, o que essas pessoas estão fazendo aqui? O que elas querem?” Viu que havia, entre elas, crianças, idosos, mulheres, toda a sorte de ser humano ali apavorada e crítica no sentido mais agudo da palavra. Tentou observar a cela envidraçada onde estava: era uma sala pequena, em formato de L, sendo que a cama e a privada estava à vista, na parte mais comprida do L; a parte de vidro dava para um corredor longo, que ia do fim de sua cela até o início, onde ficava a porta de entrada. Parecia que estava no último andar de um prédio altíssimo, pois dali se via toda a metade da cidade para onde a face do prédio apontava, num dia meio nublado, mas com claridade. Não tinha certeza de quanto tempo estava ali, dormindo, mas pelo céu, já deveria ser hora do almoço.

“O que vocês querem??”, perguntou dando socos no vidro com o lado da mão “O que estou fazendo aqui??” , seguido de mais socos. Era em vão: qualquer esforço de comunicação sonora era bloqueado pela parede de vidro, espessa e resistente aos atos violentos dos dois lados. “Meu trabalho, meu chefe vai me matar! Será que a Amanda viu o que aconteceu? Será que ela está aqui, no meio dessa gente??” Picos de pensamento vinham e iam, juntamente com a adrenalina que era liberada no seu corpo. “Pode ser um trote daqueles canalhas... é! É isso! É um trote! Começou a rir sem parar enquanto olhava para aqueles atores todos colocados ali, dentro daquela sala. “Deve ter custado muito caro fazer isso... estou ficando importante!” Virou-se para a multidão e perguntou: “quem contratou vocês? O Bernardo? O Cristiano?” A reposta silenciosa que teve foi mais choro, gritos e berros. O desespero retomou sua mente: “se não foram eles, o que estou fazendo aqui?”

As batidas no vidro vindo de fora ficaram mais intensas; assim, Júlio já não conseguia se prender a seus pensamentos. “Parem de bater! Parem! Socorro! Alguém! Socorro!” Seu tom era de completo pânico. As batidas mais e mais fortes deixavam Júlio à beira de um colapso por não saber por que estava ali e como havia chegado até aquela situação. Notou que um grupo de pessoas se concentrava na esquina do L de sua sala e batiam com mais força; algumas delas o chamavam para aquele canto. Não tinha escolha: estava preso em um aquário humano. Decidiu ir até elas.

Ao chegar à esquina, viu que, no fundo, havia uma mesa de aço inoxidável presa firmemente ao chão e, sobre ela, uma caixa também de aço com um botão vermelho. Ao ver aquilo, Júlio voltou-se para o vidro e, agora quase todas as pessoas se aglomeravam ali, batendo, gritando algo inaudível, e, quase todas no mesmo ritmo, fazendo gestos para que Júlio apertasse o botão. As crianças estavam chorando, como que esmagadas pelos adultos contra o vidro; “Vocês querem que aperte o botão?”, gritou, mais uma vez em vão. Então teve a idéia de fazer um gesto como quem aperta um botão: todos, todas fizeram sinal de positivo, uns chorando, outros gritando, mas o mesmo gesto. “Pode ser o botão que vai abrir uma porta. Mas onde?” Só agora havia se dado conta de que não havia portas naquela sala. Como entrara ali? Agora não importava mais, queria apenas sair.

Fez novamente o gesto de apertar botão, para o qual recebeu a mesma resposta positiva. Chegou perto da mesa, olhou para o botão: parecia que não estava conectado a nada, a coisa alguma. À medida que chegava mais perto, as pessoas do lado de fora paravam de bater no vidro; quando chegou ao lado da mesa, e se pôs a olhar o botão, as batidas cessaram por completo. “Meu Deus... o que esse botão faz? Será que estou aqui para isso? Se eu apertar, vou poder ir?” Olhou novamente para aquele botão vermelho e, com a mão espalmada, deu um forte aperto.

Nesse momento, as pessoas que estavam apoiadas no vidro correram para a janela da sala; Júlio correu para a frente do L, de onde podia ver melhor. Viu, então, uma série de cinco cogumelos de fumaça surgir a sua frente, ficando mais altos que o prédio onde estava, varrendo rapidamente suas bases; a disposição dos cogumelos sugeria que eles formavam um círculo ao redor da cidade, espalhando-se por completo dentro e fora dela. Em questão de segundos, viu toda a claridade sumir de sua frente; perdeu as forças das pernas e sentou-se na cama. “Deus... o que fiz...” As pessoas, que choravam, agora riam, cumprimentavam-se, as crianças batiam suas pequenas palminhas para o espetáculo. Durante mais alguns segundos, a janela não mostrava nada além de escuridão; conforme a luz natural ia retornando, todas as pessoas saíram da sala, sem olharem para Júlio. Ele, sentado na cama, pôs o rosto no meio das mãos, deu um grito e depois se deitou. Agora não havia mais barulho na sala.

quinta-feira, 26 de março de 2009

tentativa 1

Olá a todos. Faz algum tempo que não posto nada. Pois bem, isso hoje muda: segue o começo de um conto que comecei a escrever. Ainda não está todo pronto, mas já coloco a primeira parte. Aguardo os comentários e em breve chega o final.



Mesmo que Ramon já tivesse tido um estranhamento tão absurdo, era complicado acreditar naquele tipo de acontecimento, inusitado como pensar que a Terra era composta de água em sua maior parte. Até Luzia, sua namorada, mulher acostumada com coisas estranhas, tinha ficado queixo-caída com o que viu naquela noite quente de verão. Numa cidade onde o suor era o principal resquício de que algum ser com sangue quente estava vivo, aquela era uma noite que o sereno subia das ruas em forma de vapor quente queimando ainda mais qualquer um que não estivesse se queimado ao longo daquelas horas de sol mais próximo da Terra do que sempre. “Ramon, isso é uma piada sem graça?” muito embora estivesse com ela há mais de seis meses, ainda não se conheciam tão bem assim e sabiam que aquela relação não sairia do lugar; mesmo assim, pelo sexo, pela companhia e pelos benefícios que ele chupava dela, estavam juntos. Ainda não tinham transado aquela noite: Ramon estava reclamando, mais uma vez, das horas perdidas com aqueles clientes suados, sebentos e nojentos que tinha que atender na loja de ferragens. Pediu que ela viesse a seu apartamento para poder relaxar um pouco fazendo sexo. Até ali, ainda não tinha acontecido. E, agora, seria quase impossível acontecer depois de verem o que estava dentro de sua privada, no banheiro principal.

-Caralho, Luzia, que porra é essa? Foi você que colocou essa merda aí?
-Você tá louco? Por que eu ia colocar isso aí?

Pois ficava esclarecido um ponto: nenhum dos dois havia colocado aquilo dentro do vaso sanitário. Ramon, então, ajoelhou-se para admirar melhor aquele ser que, agora, habitava seu vaso.
-É uma lagosta, Luzia! Uma lagosta no meu vaso! Caralho, que maluquice!

Trabalhando numa loja de ferragens, Ramon nunca teria dinheiro para comprar um apartamento, mesmo decadente como aquele. Para sua sorte, só ele havia sobrado da sua família e, consequentemente, ele ficou com todos os bens: um pequeno apartamento, uma monark dobrável (vendida no dia seguinte que se tornou sua) e trinta e sete caixas de cascos de cerveja que cheiravam a azedo. Não as vendeu como a bicicleta: quebrou-as, uma por uma, durante as noites que não conseguia dormir pelo calor do inferno. Jogava-as na rua, esperando alguém cortar o pé ou furar pneus; nunca aconteceu, pelo menos que tenha visto.

-Uma lagosta? Não é um camarão?

-Não, não... tenho certeza de que é uma lagosta... pensei numa coisa: se ela não tivesse aparecido no vaso...

-Que isso, Ramon! Como você é nojento!

O fato, inegável até para o cérebro mais cético, é que uma lagosta estava dentro da privada de Ramon. Pediu a Luzia que não comentasse com ninguém, pois achava que podiam chamá-lo de louco ou de armar uma situação. Isso ficou combinado. Já estavam cansados e decidiram ir dormir. O que seria feito da ou com a lagosta seria arrumado no dia seguinte. Antes de dormir, Ramon tentou, mas não conseguiu. Aquela lagosta havia estragado tudo.

Luzia acordou cedo e saiu. Deixou um bilhete, como de costume. Ramon acordou tarde e atrasado. Ao se levantar, correndo, foi direto para o chuveiro. Quando terminou de se vestir, lembrou-se do novo morador: olhou para o fundo do vaso e só viu as antenas, como que procurando comida.

-O que vou fazer com você?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Memória...

Imagine se um dia, quando acordasse, você fosse esquecido por todos ao seu redor, desde familiares a amigos e colegas. Se quando saísse e encontrasse pessoas que conhece e elas não soubessem quem você é. Qual seria sua reação?

Todos os dias isso ocorre com muitas pessoas, por diferentes motivos e de jeitos distintos. Eles caem no buraco do esquecimento e, assim, ninguém mais se lembra deles, sendo jogados, cada vez mais, no terreno escuro dos cérebros das pessoas.

E nós, todos de certa maneira, também somos esquecidos por um Estado inatuante que vai nos esquecendo, deixando de lado, alimentando-se do que produzimos... mas não ficamos inertes: batemos à porta, gritamos e tentamos ser lembrados...

Mas não podemos ser hipócritas: certamente, ao ler isto, você deve estar puxando pela memória para se lembrar de alguém que você esqueceu algum tempo atrás... Não é??

E com você, o que seria? Como você enfrentaria isso? O que faria? Isso pode acontecer com qualquer um de nós... a qualquer momento...

domingo, 4 de janeiro de 2009

O Brasil e os brasileiros


Sempre me pergunto por que as pessoas aqui neste país não estão nem aí para o que se chama de bem público. Neste caso, bem público é o que nos cerca e o que faz parte do nosso ambiente. Isso vai desde as ruas e calçadas até as florestas que estão dentro das nossas fronteiras. Pois bem, no caso do Brasil, isso tudo é complicado, ainda mais chamando de nosso. O que é nosso de verdade é um tema que merece ser abordado num post diferente, mas tomando por base o que eu disse até o momento, fica a pergunta: por que o brasileiro não respeita o Brasil?



O Brasil, como bem público, não é respeitado. Andei pensando sobre isso e me veio a idéia: não se respeita o Brasil porque não se gosta do Brasil. Pode parecer um pouco forte ou leviano, mas observe só: o que é de domínio público não é NUNCA respeitado por aqui. Desde a rua até seu direito mais básico (pra não falar de novo nas florestas), não se respeita ou se quer ter um mínimo de respeito, tudo isso porque as pessoas não gostam do Brasil. É claro que se pode dizer que o brasileiro ama o Brasil, não consegue ficar longe, não sabe viver bem se não for aqui... mas será que esse amar é positivo? Acho que isso veio com o tempo, com a colonização e com a idéia portuguesa de “esta não é minha terra, faz-se de qualquer jeito”. Num livro que li recentemente sobre a América Latina, o autor dizia que as cidades hispânicas aqui no Novo Mundo eram planejadas e bem organizadas enquanto as portuguesas eram sem planejamento ou cuidado organizacional. A Terra já era tratada com desrespeito há séculos. Será que vem daí esse sentimento de desprezo pelo Brasil?


Se cairmos na tentação de compararmos nossas atuações com outras sociedades talvez enxerguemos isso de uma maneira mais contundente. Desde a sociedade que nos colonizou até a francesa e a inglesa, pra não falar nas ainda mais avançadas, essa sensação de “desamor” é rara. Por aqui, fica aquela aparência de “não é meu, que se dane.” Mas na copa eu canto o hino, pinto a cara e toco corneta. Mesmo que depois disso eu suje a rua toda. Não é minha mesmo...


E para finalizar, vale falar da língua, tão na moda com essa reforma ortográfica. Alguns até dizem que é um elemento alienígena, já que as línguas dos índios são outras, mas o fato é que temos essa língua como elo com mais de 100 milhões de outros falantes e, mesmo assim, tratamos esse elo como outro “bem público”: é do colonizador, então deixa pra lá...


Esse desamor que vai em todas as camadas da sociedade se tornou tão forte que hoje em dia é complicado se querer respeitar o bem público. E assim a história vai seguindo, vamos ficando para trás e sempre olhando o que é nosso como se fosse de ninguém. O problema é que se ficarmos insistindo que é de ninguém, um dia alguém vem e pega. E não será fácil recuperar...