quinta-feira, 26 de março de 2009

tentativa 1

Olá a todos. Faz algum tempo que não posto nada. Pois bem, isso hoje muda: segue o começo de um conto que comecei a escrever. Ainda não está todo pronto, mas já coloco a primeira parte. Aguardo os comentários e em breve chega o final.



Mesmo que Ramon já tivesse tido um estranhamento tão absurdo, era complicado acreditar naquele tipo de acontecimento, inusitado como pensar que a Terra era composta de água em sua maior parte. Até Luzia, sua namorada, mulher acostumada com coisas estranhas, tinha ficado queixo-caída com o que viu naquela noite quente de verão. Numa cidade onde o suor era o principal resquício de que algum ser com sangue quente estava vivo, aquela era uma noite que o sereno subia das ruas em forma de vapor quente queimando ainda mais qualquer um que não estivesse se queimado ao longo daquelas horas de sol mais próximo da Terra do que sempre. “Ramon, isso é uma piada sem graça?” muito embora estivesse com ela há mais de seis meses, ainda não se conheciam tão bem assim e sabiam que aquela relação não sairia do lugar; mesmo assim, pelo sexo, pela companhia e pelos benefícios que ele chupava dela, estavam juntos. Ainda não tinham transado aquela noite: Ramon estava reclamando, mais uma vez, das horas perdidas com aqueles clientes suados, sebentos e nojentos que tinha que atender na loja de ferragens. Pediu que ela viesse a seu apartamento para poder relaxar um pouco fazendo sexo. Até ali, ainda não tinha acontecido. E, agora, seria quase impossível acontecer depois de verem o que estava dentro de sua privada, no banheiro principal.

-Caralho, Luzia, que porra é essa? Foi você que colocou essa merda aí?
-Você tá louco? Por que eu ia colocar isso aí?

Pois ficava esclarecido um ponto: nenhum dos dois havia colocado aquilo dentro do vaso sanitário. Ramon, então, ajoelhou-se para admirar melhor aquele ser que, agora, habitava seu vaso.
-É uma lagosta, Luzia! Uma lagosta no meu vaso! Caralho, que maluquice!

Trabalhando numa loja de ferragens, Ramon nunca teria dinheiro para comprar um apartamento, mesmo decadente como aquele. Para sua sorte, só ele havia sobrado da sua família e, consequentemente, ele ficou com todos os bens: um pequeno apartamento, uma monark dobrável (vendida no dia seguinte que se tornou sua) e trinta e sete caixas de cascos de cerveja que cheiravam a azedo. Não as vendeu como a bicicleta: quebrou-as, uma por uma, durante as noites que não conseguia dormir pelo calor do inferno. Jogava-as na rua, esperando alguém cortar o pé ou furar pneus; nunca aconteceu, pelo menos que tenha visto.

-Uma lagosta? Não é um camarão?

-Não, não... tenho certeza de que é uma lagosta... pensei numa coisa: se ela não tivesse aparecido no vaso...

-Que isso, Ramon! Como você é nojento!

O fato, inegável até para o cérebro mais cético, é que uma lagosta estava dentro da privada de Ramon. Pediu a Luzia que não comentasse com ninguém, pois achava que podiam chamá-lo de louco ou de armar uma situação. Isso ficou combinado. Já estavam cansados e decidiram ir dormir. O que seria feito da ou com a lagosta seria arrumado no dia seguinte. Antes de dormir, Ramon tentou, mas não conseguiu. Aquela lagosta havia estragado tudo.

Luzia acordou cedo e saiu. Deixou um bilhete, como de costume. Ramon acordou tarde e atrasado. Ao se levantar, correndo, foi direto para o chuveiro. Quando terminou de se vestir, lembrou-se do novo morador: olhou para o fundo do vaso e só viu as antenas, como que procurando comida.

-O que vou fazer com você?