domingo, 26 de abril de 2009

O Botão Vermelho

Olá! Ainda não consegui terminar todo o conto anterior, mas escrevi um novo que trago hoje. Chama-se "O Botão Vermelho". Os comentários serão, como sempre, bem-vindos.

Acordou com umas batidas no vidro. Levou um susto, claro. Ao olhar em volta, Júlio não entendeu o que estava acontecendo e onde estava. Havia chegado a sua casa na madrugada, meio alto por causa das comemorações. Mal teve tempo de tirar a roupa toda: ficou com as calças de sarja e a camisa social, as meias pretas combinando com as calças de corte moderno. Quando se lembrou disso, olhou para suas roupas e viu que estava vestindo umas calças brancas de hospital e camisa de mangas longas, também de hospital. Nas duas mangas, na altura do cotovelo, havia a impressão de um nome: ENAM. “O que é isso? Onde estou? Quem é essa gente?”, perguntava-se mentalmente. Apenas se lembrava de se ter deitado, ainda tonto. E de toda a festa. Agora acordava ali, numa cama de aço inoxidável, colchão preso e duro, travesseiro amarrado à cama e uma privada também de aço. “Será uma experiência científica?”

Não entendia como foi parar ali, porque estava ali e, principalmente, para que estava ali. Onde estava Amanda? Ainda se lembrava dela: estava deitada no seu lado da cama quando chegou. Certamente tinha ficado nervosa por ele ter chegado tão tarde e ele sabia que a enfrentaria quando acordasse; a culpa era dela, de qualquer maneira, afinal não tinha chamado ninguém para morar com ele naquele momento da vida. Se ela quis ir, ela que agüente, foi o que disseram seus amigos.

Depois daqueles cinco segundos de atividade cerebral intensa, olhou para o lugar de onde viera o barulho da batida e pôde perceber algo bizarro: havia, olhando pelo vidro, mais de cem pessoas falando, gesticulando, gritando, chorando, berrando para ele, mas, incrivelmente, não escutava nada devido ao isolamento acústico. “Meu Deus, o que essas pessoas estão fazendo aqui? O que elas querem?” Viu que havia, entre elas, crianças, idosos, mulheres, toda a sorte de ser humano ali apavorada e crítica no sentido mais agudo da palavra. Tentou observar a cela envidraçada onde estava: era uma sala pequena, em formato de L, sendo que a cama e a privada estava à vista, na parte mais comprida do L; a parte de vidro dava para um corredor longo, que ia do fim de sua cela até o início, onde ficava a porta de entrada. Parecia que estava no último andar de um prédio altíssimo, pois dali se via toda a metade da cidade para onde a face do prédio apontava, num dia meio nublado, mas com claridade. Não tinha certeza de quanto tempo estava ali, dormindo, mas pelo céu, já deveria ser hora do almoço.

“O que vocês querem??”, perguntou dando socos no vidro com o lado da mão “O que estou fazendo aqui??” , seguido de mais socos. Era em vão: qualquer esforço de comunicação sonora era bloqueado pela parede de vidro, espessa e resistente aos atos violentos dos dois lados. “Meu trabalho, meu chefe vai me matar! Será que a Amanda viu o que aconteceu? Será que ela está aqui, no meio dessa gente??” Picos de pensamento vinham e iam, juntamente com a adrenalina que era liberada no seu corpo. “Pode ser um trote daqueles canalhas... é! É isso! É um trote! Começou a rir sem parar enquanto olhava para aqueles atores todos colocados ali, dentro daquela sala. “Deve ter custado muito caro fazer isso... estou ficando importante!” Virou-se para a multidão e perguntou: “quem contratou vocês? O Bernardo? O Cristiano?” A reposta silenciosa que teve foi mais choro, gritos e berros. O desespero retomou sua mente: “se não foram eles, o que estou fazendo aqui?”

As batidas no vidro vindo de fora ficaram mais intensas; assim, Júlio já não conseguia se prender a seus pensamentos. “Parem de bater! Parem! Socorro! Alguém! Socorro!” Seu tom era de completo pânico. As batidas mais e mais fortes deixavam Júlio à beira de um colapso por não saber por que estava ali e como havia chegado até aquela situação. Notou que um grupo de pessoas se concentrava na esquina do L de sua sala e batiam com mais força; algumas delas o chamavam para aquele canto. Não tinha escolha: estava preso em um aquário humano. Decidiu ir até elas.

Ao chegar à esquina, viu que, no fundo, havia uma mesa de aço inoxidável presa firmemente ao chão e, sobre ela, uma caixa também de aço com um botão vermelho. Ao ver aquilo, Júlio voltou-se para o vidro e, agora quase todas as pessoas se aglomeravam ali, batendo, gritando algo inaudível, e, quase todas no mesmo ritmo, fazendo gestos para que Júlio apertasse o botão. As crianças estavam chorando, como que esmagadas pelos adultos contra o vidro; “Vocês querem que aperte o botão?”, gritou, mais uma vez em vão. Então teve a idéia de fazer um gesto como quem aperta um botão: todos, todas fizeram sinal de positivo, uns chorando, outros gritando, mas o mesmo gesto. “Pode ser o botão que vai abrir uma porta. Mas onde?” Só agora havia se dado conta de que não havia portas naquela sala. Como entrara ali? Agora não importava mais, queria apenas sair.

Fez novamente o gesto de apertar botão, para o qual recebeu a mesma resposta positiva. Chegou perto da mesa, olhou para o botão: parecia que não estava conectado a nada, a coisa alguma. À medida que chegava mais perto, as pessoas do lado de fora paravam de bater no vidro; quando chegou ao lado da mesa, e se pôs a olhar o botão, as batidas cessaram por completo. “Meu Deus... o que esse botão faz? Será que estou aqui para isso? Se eu apertar, vou poder ir?” Olhou novamente para aquele botão vermelho e, com a mão espalmada, deu um forte aperto.

Nesse momento, as pessoas que estavam apoiadas no vidro correram para a janela da sala; Júlio correu para a frente do L, de onde podia ver melhor. Viu, então, uma série de cinco cogumelos de fumaça surgir a sua frente, ficando mais altos que o prédio onde estava, varrendo rapidamente suas bases; a disposição dos cogumelos sugeria que eles formavam um círculo ao redor da cidade, espalhando-se por completo dentro e fora dela. Em questão de segundos, viu toda a claridade sumir de sua frente; perdeu as forças das pernas e sentou-se na cama. “Deus... o que fiz...” As pessoas, que choravam, agora riam, cumprimentavam-se, as crianças batiam suas pequenas palminhas para o espetáculo. Durante mais alguns segundos, a janela não mostrava nada além de escuridão; conforme a luz natural ia retornando, todas as pessoas saíram da sala, sem olharem para Júlio. Ele, sentado na cama, pôs o rosto no meio das mãos, deu um grito e depois se deitou. Agora não havia mais barulho na sala.