terça-feira, 8 de dezembro de 2009

azul na terra


Depois de juntar seu salário por quatro anos e cinco meses, de deixar de comprar o móvel que a mulher queria, a TV que queria, a geladeira nova que queriam, parte do material para Guilherme em vários anos letivos, um DVD (a nova febre consumista), ele conseguiu comprar um carro. Era um Volkswagen fusca, o primeiro carro entre todos os primeiros carros que se pode escolher, num azul que se confundia com o céu no fim dos dias daquele verão abafado e sem nuvens. A família, totalizando três com ele, ficou em polvorosa. Afinal, nunca tinham tido a possibilidade de ir ao mercado e voltar sem carregar as compras nos braços. Nunca tinham deixado de pegar ônibus para se mover para longe do bairro. Nunca tinha tido um bem material que se locomovia sem necessidade de empurrar. Aquele pedaço de céu sobre rodas era o paraíso na terra.



Toda a tarde, quando Guilherme voltava da aula e ele terminava os afazeres trabalhais, entravam naquele azul e saíam pela rua, dando uma volta no quarteirão. Ainda não podia ir longe porque não tinha prática no volante. Mas Guilherme, ao sentir o vento nos dias abafados, já ficava feliz. E ele, bem, ele se sentia um homem poderoso, provedor e cuidador, como deve ser e como o papel determina. Sempre, sem exceção, ficava com lágrimas somente no olho direito, porque o esquerdo permanecia seco para ver o retrovisor. Coisas que só aquele momento podia dividir.



Com o passar do ano, aquele azul ficou negro, com tempestades de ferrugem; fazia de tudo, mas os tempos, metereológico e cronológico, eram fulminantes: e, pouco a pouco, seu céu foi tomado por nuvens negras, deteriorando-se. Guilherme não sentia mais o vento no rosto e as lágrimas enchiam os pequenos olhos. Fizeram de tudo, mas já estava tomado. Até que, numa também tarde de verão, percebeu que seu azul morrera. E nada poderia fazer. Flocos pela calçada, buracos espalhados, como se uma doença incurável tivesse contaminado todo seu corpo metálico. Seu filho chorava, sua mulher chorava e ele tentou se controlar. Naquele instante, com sua simplicidade, olhando para seu mais precioso sonho e para sua família, percebeu que tudo é finito. E que o tempo é o encarregado a nos mostrar a finitude. Até mesmo a finitude dos sonhos. Então chorou pelos dois olhos.