sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

velhos clichês


Pra que brincar se ninguém joga com você?
Por que chorar se ninguém seca sua lágrima?
Por que sorrir se ninguém divide com você?
Por que andar se não se chega a lugar nenhum?
Por que pensar se não se fala?
Pra que comprar se nada é eterno?
Pra que sentir se o coração para?
Por que ouvir se se esquece?
Por que acordar se o dia sempre termina?
Pra que viver se se morre?

Pra quê?
Por quê?

Não sei. Por mais clichê e piegas que possa parecer.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Numa sexta à noite, percebi uma linda menina sentada a algumas mesas longe de mim no bar. Fiquei olhando pra ela quase a noite toda e, quando já ia tomar minha atitude, o garçom trouxe um guardanapo com algumas frases escritas com lápis de olho:

“Não tenho vida social ativa.
Não tenho perfil em redes sociais na internet.
Não tenho carro novo.
Não tenho um bom emprego.
Enfim, não tenho nada.
Não tenho nem a mim mesma...”

Me levantei e fui embora. Imagina se eu ia querer ficar com alguém que não tem perfil na internet? Jamais.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Depois de anos sofrendo em silêncio, um grupo de homens resolveu fundar a AMT: associação de maridos traídos. Logo ela se espalhou pelo mundo. Numa dessas reuniões, dois novos membros aparecem:

Olá, meu nome é Bento, mas me chamam de Bentinho ou Casmurro. Tô nessa reunião hoje porque... bem... vocês sabem. Ela é uma linda mulher, mas a puta me traiu com meu melhor amigo.
 Ainda não superei isso. Parece que foram séculos, sabe? Mas eu continuo sentindo isso aqui dentro. No meu coração.
Até um filho ela fez com ele. Vaca. Ele não é culpado: ela tem uns olhos que cativam qualquer mortal.
Não quero mais ver essa mulher nem pintada de ouro. Já a mandei pra longe. Agora só quero viver com essa dor. Eu e ela. A dor, claro.
Obrigado por me ouvirem, amigos.

Ok, Bento. Aplausos pra ele. O próximo da lista é... Charles Bovary... por favor, venha até o microfone.

sábado, 7 de agosto de 2010

POXA, LEONARDO, VOCÊ QUEBROU MEU COPO DE BUENOS AIRES!

Já é possível perceber, leitor, pelas letras colocadas nessa frase acima, que Leonardo acaba de fazer uma besteira. Não sendo a única, nem a recente solitária, ele está, mais uma vez, à mercê do ódio que lhe martela a alma e a cabeça.

EU GOSTAVA TANTO DESSE COPO! SÓ DEUS SABE QUANDO VAMOS À ARGENTINA DE NOVO,
gritou Angélica, não histérica, mas odiosa.

Leonardo, sentindo o peso dos dias e dos anos sobre seus ombros, pulou com os dois pés sobre os cacos, cortado suas solas e urrando de dor. Caiu.

LEONARDO! MEU DEUS!

No chão e esvaindo de sangue, Leonardo parecia feliz. Foi ficando pálido até fechar os olhos enquanto Angélica gritava, mais uma vez, sem saber o que fazer.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Estrelas no céu

Mãe, aquela luz é um avião?


Não, filha, é uma estrela!


Que que é isso, estrela? Não sei o que é.


Ô, minha linda, estrela é o que gente se torna quando não mora mais aqui. Uma luz pra guiar que ficou, entendeu?


Então papai é uma estrela?


Sim, filha, disse a mãe já com lágrimas nos olhos, papai é uma estrela.



Dois anos depois, Renatinha viu mais uma estrela se acender no céu. Foi a única lembrança que lhe restou depois de ter toda a sua vida queimada enquanto brincava no parquinho com a amiga da escola.

domingo, 11 de julho de 2010

Gostava de ouvir os carros passando pela rua na madrugada. Fazia com que se sentisse viva. Àquela hora da madrugada, pessoas iam e vinham, de algum lugar pra algum lugar. A solidão não era para todos. Mas era para ela. O último copo de vinho tinto também era a senha. Não era hora de dormir, mas de tomar calmantes. Tomou seus quatro de costume. Deitou-se. Acordou às sete e quinze com o filho chamando, desesperado. Estavam atrasados. O marido nervoso sem café. Os filhos confusos e gritando. O cachorro latindo de fome. Os vizinhos fazendo vitamina. É. Estava mesmo viva. E não estava só.

sábado, 5 de junho de 2010

Navalha na carne

Ser barbeiro era seu sonho: metal frio, brilhante, cortante. Conseguiu, aos dezessete anos.


Depois de quase trinta anos, tinha pela navalha seu apreço maior: era fria, afiada, certa e eficaz. Cortava até os sonhos. Como os dele.


Imaginava, já não tinha mais sonhos, em usá-la ao extremo, para ver a alegria de ambos (a dele e a dela). Quando descobriu o que ex-namorado fez com a filha de dezoito anos, ofereceu uma barba gratuita.


Usou-a ao extremo, alegre. Ela também, alegre. Brilhavam mais do que nunca, escarlates. A navalha e suas mãos.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Daqui, desta cama, observo o mundo ao meu redor; o alimento físico, esse entra pelo nariz, por um tubo que vai até minha garganta e só o que vejo é o mingau branco passando, sendo empurrado nariz adentro. Sei que não é a melhor maneira de se começar, mas ainda estou um pouco incomodado com isso. Logo eu, homem que sempre gostou de sentir a comida, de saborear os temperos, de aproveitar o sal; eu, agora, como sem gosto e sem vontade, apenas para me manter. Também me alimento pelo que não é físico. E essa comida tiro daqueles que me visitam, que me olham, que me penam. Sim, eu percebo: as pessoas têm pena de mim. Jogado sobre uma cama, num hospital e visitado pelos religiosos aos domingos. Penso nisso. Afinal, tempo é o que tenho. Ou não: o médico disse que vou morrer rápido, que os pulmões não aguentam muito. Os filhos (se queres um conselho, cuidado com eles: são calhordas) nem se preocuparam em se despedirem. Entendo: graças a mim também vão pelo mesmo caminho. Mas fazer o quê? Como diz o ditado, tal pai, tal filho.

Cada dia que acordo, entendo que ainda não é minha hora; fiz um acordo: só morro dormindo, sonhando. Enquanto isso, toda a manhã que acordo, sei então que não morro. Estranho, não é? Mas assim são os acordos: feitos e cumpridos. Os lençóis estão rotos e me causam alergia. Comum na minha circunstância de não se pôr mais em pé. O horário de visitas está acabando e vejo os outros se irem. Fico até triste, mas por pouco tempo. Sempre quando eles se vão, os meus colegas de quarto me dão alguma coisa que receberam, mas de não gostam: ah, o sabor. O prazer de sentir. Pena que tenho que cuspir: glote fechada, impossível engolir ou respirar sem o buraco no pescoço. Sei que, em pouco tempo, não serei mais nada. Mas, enquanto isso, vivo como posso. Vejo e sinto como posso. E sei que também és assim. Ou não és? Bem, isso só tu podes dizer... ah, sim. Não falas mais. Uma pena. Odeio monólogos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

No meio de uma discussão sobre a pilha de louças a ser lavada, ela diz:

- Ah, Gustavo, para com isso. Você parece uma flor que acabou de desabrochar...

Depois desse insulto (um dos piores dos últimos meses), ele olhou para o chão e saiu da cozinha. Muitos espinhos no caminho...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

não sei o que é mais angustiante: estar mergulhado até o pescoço num lago de piche ou ver o ano passar pelas datas que coloco no quadro dia após dia...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

de balas e corações

Tudo o que Carlos queria era aquela linda menina que estava ao seu lado. Ele, do alto dos seus sete anos, tomou uma pequena flor que estava no jardim, juntou-a a sua bala de morango em forma de coração que tinha no bolso e seguiu seu destino.


- Oi, Ana... trouxe esses presentes pra você...

- Morango? Eu gosto de laranja...

- E da flor, gostou?

- Gostei... mas não é de comer, né? – e se levantou.


E foi então, pela primeira vez de muitas, que Carlos entendeu como as meninas podiam partir o coração de um menino, homem, velho, gênero masculino. Deixou algumas lágrimas chegarem aos lábios (gostava do sabor). Se levantou e foi para o escorrego. Aquele era o primeiro, haveria outros. Mas tinha um tempo para o escorrego... e até para a gangorra...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

da série "eu queria ter escrito isso"

O MUNDO É UM MOINHO

(Cartola)

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Dia P

Os técnicos federais, estaduais e municipais estavam errados. Até os estrangeiros, por incrível que podia parecer aos olhos de alguns nativos. De certa forma, a pobreza já conhecia de antemão o que aconteceu naquele dois de outubro. Afinal, quem precisava viver a realidade via e sabia.

Ficou convencionado, pela imprensa (sempre, sempre inventando nomes para as coisas que deles não necessitam), como o Dia P: uma analogia mal-feita com o Dia D da segunda guerra mundial.


Os jornais, tevês, rádios e outras coisas da maior cidade do país pareciam indignados, pois era lá, na maior em tudo, que isso tinha que acontecer. Mas não aconteceu. E a pobreza sabia onde seria. E como seria. Talvez, até, o mais importante desse desenrolo.


A falta de investimentos, infra-estrutura, dinheiro, vontade, educação e obras fez com que a segunda maior cidade daquela república, no dia dois de outubro, simplesmente parasse. Sim: os carros, coletivos, caminhões, furgões, micro ou macro máquinas movimentadas por motores incharam as ruas, estradas, avenidas, ruelas, becos e pontes e tudo parou. Não se movia para frente ou para trás. Mesmo que se retirasse com máquinas, era inviável devido ao gigantesco volume.


A princípio, se pensou num grande engarrafamento. Ou um desastre. Mas, com o passar das horas, os motoristas, passageiros e todos os outros afins, perceberam que se tratava de uma grande parada. Um interminável, que atingia a cidade e seus vizinhos-dormitórios.


Primeiro, o governador. Depois, os prefeitos numa mesma sala (união nunca vista); nada adiantou. Por dias, houve protestos, discussões e palavrórios. Até o presidente da república e o primeiro ministro sobrevoaram as áreas. Como se fosse adiantar. Os jornais questionaram durante as primeiras semanas até um brilhante colunista, respeitado até pelos ex-ditadores latinos e não-latinos, publicar a coluna com o título “Ajudamos no combate ao aquecimento global!”.


Pronto. Novamente, governador, prefeitos e agora, até, os presidente e premier se reuniram e declararam que aquilo era ótimo, que as outras cidades deveriam fazer o mesmo e que seria um exemplo para o futuro mundial! A pobreza, com seu churrasco mal-passado, se viu obrigada a trocar o dinheiro da passagem por bicicletas.


A verba para emergências foi liberada e, depois de anos de adiamentos, falcatruas e resoluções mal-redigidas, ciclovias foram abertas. Cartazes contra a obesidade foram espalhados (certamente seria ótimo para a população se exercitar) e, por um momento, a cidade estava mais feliz, mais limpa e mais magra. Mesmo com tantos autos parados, era possível viver.


Depois de três meses, no novo ano quase-iniciado (antes do carnaval, aquele hemisfério não girava), começou a invasão pelas comunidades existentes ali: dos morros, das áreas pobres, dos cortiços, elas vieram e tomaram os carros, coletivos, caminhões como moradia. Quem teve a ideia primeiro se saiu melhor: havia carros por todas as praias da cidade, assim, havia famílias vivendo num ônibus de frente pra praia! Nunca imaginaram tal possibilidade!


Os que demoraram tiveram que se contentar com carros mais apertados, chamados de populares, duas portas, longe do centro ou perto de museus e teatros, portanto locais desvalorizados para eles.


Novamente, houve comoção nacional: como podia aquilo, invasão e pilhéria de um evento histórico? Reuniões, debates, discussões. A polícia iria agir com força para restabelecer a ordem.


O derramamento de sangue não ocorreu. Não graças ao governo. O mesmo colunista, defensor do combate ao aquecimento global, sugeriu que se fosse feita a “reforma agrária automotiva”: cadastramento de famílias, contagem dos metros quadrados das novas residências, urbanização e a devida cobrança por isso tudo.


Novas reuniões, nova felicidade e mais impostos vindos dos que nem podiam pagar (mesmo com seu churrasco fim-de-semanal): os governos haviam encontrado a saída perfeita. Poucas famílias voltaram para suas casas antigas e, aquelas que ficavam nas bases das matas, foram incluídas no plano de reflorestamento. Obviamente que o plano nunca aconteceu, mas a floresta tomou todas as casas.


Décadas depois, se descobriu que o brilhante colunista foi pago por uma fábrica de bicicletas e, mais tarde, pelas empresas de serviços básicos para dar as sugestões. Julgado e condenado, morreu antes de ser preso, graças a vários julgamentos posteriores. Mas não sem deixar sua herança: um caminhão-cegonha para toda a família, perto da praia e super equipado.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nem comecei e já preciso parar...



domingo, 3 de janeiro de 2010


"A gente não vê quando o vento se acaba..."

Guimarães Rosa


Feliz ano novo pra todos nós...