sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Dia P

Os técnicos federais, estaduais e municipais estavam errados. Até os estrangeiros, por incrível que podia parecer aos olhos de alguns nativos. De certa forma, a pobreza já conhecia de antemão o que aconteceu naquele dois de outubro. Afinal, quem precisava viver a realidade via e sabia.

Ficou convencionado, pela imprensa (sempre, sempre inventando nomes para as coisas que deles não necessitam), como o Dia P: uma analogia mal-feita com o Dia D da segunda guerra mundial.


Os jornais, tevês, rádios e outras coisas da maior cidade do país pareciam indignados, pois era lá, na maior em tudo, que isso tinha que acontecer. Mas não aconteceu. E a pobreza sabia onde seria. E como seria. Talvez, até, o mais importante desse desenrolo.


A falta de investimentos, infra-estrutura, dinheiro, vontade, educação e obras fez com que a segunda maior cidade daquela república, no dia dois de outubro, simplesmente parasse. Sim: os carros, coletivos, caminhões, furgões, micro ou macro máquinas movimentadas por motores incharam as ruas, estradas, avenidas, ruelas, becos e pontes e tudo parou. Não se movia para frente ou para trás. Mesmo que se retirasse com máquinas, era inviável devido ao gigantesco volume.


A princípio, se pensou num grande engarrafamento. Ou um desastre. Mas, com o passar das horas, os motoristas, passageiros e todos os outros afins, perceberam que se tratava de uma grande parada. Um interminável, que atingia a cidade e seus vizinhos-dormitórios.


Primeiro, o governador. Depois, os prefeitos numa mesma sala (união nunca vista); nada adiantou. Por dias, houve protestos, discussões e palavrórios. Até o presidente da república e o primeiro ministro sobrevoaram as áreas. Como se fosse adiantar. Os jornais questionaram durante as primeiras semanas até um brilhante colunista, respeitado até pelos ex-ditadores latinos e não-latinos, publicar a coluna com o título “Ajudamos no combate ao aquecimento global!”.


Pronto. Novamente, governador, prefeitos e agora, até, os presidente e premier se reuniram e declararam que aquilo era ótimo, que as outras cidades deveriam fazer o mesmo e que seria um exemplo para o futuro mundial! A pobreza, com seu churrasco mal-passado, se viu obrigada a trocar o dinheiro da passagem por bicicletas.


A verba para emergências foi liberada e, depois de anos de adiamentos, falcatruas e resoluções mal-redigidas, ciclovias foram abertas. Cartazes contra a obesidade foram espalhados (certamente seria ótimo para a população se exercitar) e, por um momento, a cidade estava mais feliz, mais limpa e mais magra. Mesmo com tantos autos parados, era possível viver.


Depois de três meses, no novo ano quase-iniciado (antes do carnaval, aquele hemisfério não girava), começou a invasão pelas comunidades existentes ali: dos morros, das áreas pobres, dos cortiços, elas vieram e tomaram os carros, coletivos, caminhões como moradia. Quem teve a ideia primeiro se saiu melhor: havia carros por todas as praias da cidade, assim, havia famílias vivendo num ônibus de frente pra praia! Nunca imaginaram tal possibilidade!


Os que demoraram tiveram que se contentar com carros mais apertados, chamados de populares, duas portas, longe do centro ou perto de museus e teatros, portanto locais desvalorizados para eles.


Novamente, houve comoção nacional: como podia aquilo, invasão e pilhéria de um evento histórico? Reuniões, debates, discussões. A polícia iria agir com força para restabelecer a ordem.


O derramamento de sangue não ocorreu. Não graças ao governo. O mesmo colunista, defensor do combate ao aquecimento global, sugeriu que se fosse feita a “reforma agrária automotiva”: cadastramento de famílias, contagem dos metros quadrados das novas residências, urbanização e a devida cobrança por isso tudo.


Novas reuniões, nova felicidade e mais impostos vindos dos que nem podiam pagar (mesmo com seu churrasco fim-de-semanal): os governos haviam encontrado a saída perfeita. Poucas famílias voltaram para suas casas antigas e, aquelas que ficavam nas bases das matas, foram incluídas no plano de reflorestamento. Obviamente que o plano nunca aconteceu, mas a floresta tomou todas as casas.


Décadas depois, se descobriu que o brilhante colunista foi pago por uma fábrica de bicicletas e, mais tarde, pelas empresas de serviços básicos para dar as sugestões. Julgado e condenado, morreu antes de ser preso, graças a vários julgamentos posteriores. Mas não sem deixar sua herança: um caminhão-cegonha para toda a família, perto da praia e super equipado.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nem comecei e já preciso parar...