quarta-feira, 26 de maio de 2010

Daqui, desta cama, observo o mundo ao meu redor; o alimento físico, esse entra pelo nariz, por um tubo que vai até minha garganta e só o que vejo é o mingau branco passando, sendo empurrado nariz adentro. Sei que não é a melhor maneira de se começar, mas ainda estou um pouco incomodado com isso. Logo eu, homem que sempre gostou de sentir a comida, de saborear os temperos, de aproveitar o sal; eu, agora, como sem gosto e sem vontade, apenas para me manter. Também me alimento pelo que não é físico. E essa comida tiro daqueles que me visitam, que me olham, que me penam. Sim, eu percebo: as pessoas têm pena de mim. Jogado sobre uma cama, num hospital e visitado pelos religiosos aos domingos. Penso nisso. Afinal, tempo é o que tenho. Ou não: o médico disse que vou morrer rápido, que os pulmões não aguentam muito. Os filhos (se queres um conselho, cuidado com eles: são calhordas) nem se preocuparam em se despedirem. Entendo: graças a mim também vão pelo mesmo caminho. Mas fazer o quê? Como diz o ditado, tal pai, tal filho.

Cada dia que acordo, entendo que ainda não é minha hora; fiz um acordo: só morro dormindo, sonhando. Enquanto isso, toda a manhã que acordo, sei então que não morro. Estranho, não é? Mas assim são os acordos: feitos e cumpridos. Os lençóis estão rotos e me causam alergia. Comum na minha circunstância de não se pôr mais em pé. O horário de visitas está acabando e vejo os outros se irem. Fico até triste, mas por pouco tempo. Sempre quando eles se vão, os meus colegas de quarto me dão alguma coisa que receberam, mas de não gostam: ah, o sabor. O prazer de sentir. Pena que tenho que cuspir: glote fechada, impossível engolir ou respirar sem o buraco no pescoço. Sei que, em pouco tempo, não serei mais nada. Mas, enquanto isso, vivo como posso. Vejo e sinto como posso. E sei que também és assim. Ou não és? Bem, isso só tu podes dizer... ah, sim. Não falas mais. Uma pena. Odeio monólogos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

No meio de uma discussão sobre a pilha de louças a ser lavada, ela diz:

- Ah, Gustavo, para com isso. Você parece uma flor que acabou de desabrochar...

Depois desse insulto (um dos piores dos últimos meses), ele olhou para o chão e saiu da cozinha. Muitos espinhos no caminho...