quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Miniconto

Ela tinha os olhos azul-oceano.

—Não mergulhe em mim, disse, me alertando.

Já era tarde demais.

Miniconto

Pedro trancou sua porta e viu o tempo passar. Envelheceu em sua mente, só.

Reabriu a porta, olhou para fora, fechou-a. A solidão era um bem maior do que a convivência humana.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A segunda maior nação comunista do mundo

Quando a Índia se tornou independente, em 1947, seu governo teve duas possibilidades de escolha: ou se alinhava ao bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos, ou ficava ao lado da antiga União Soviética, tornando-se comunista. O partido vencedor das eleições, de cunho marxista, optou pela aproximação à URSS. Durante cerca de 40 anos, as políticas públicas indianas estiveram voltadas para o socialismo, o Estado interferindo ativamente na economia e na cadeia de produção, e os frutos que se colheram dessas décadas, segundo historiadores, foram, basicamente, a transformação da Índia em potência atômica e a construção dos Institutos de Tecnologia (baseados no MIT). Hoje, a Índia busca mudar sua estrutura social através do investimento em educação básica, pois os Institutos garantem a boa formação superior dos indianos, e o governo não regula a economia como antes.


Não é a Índia, porém, o tema deste texto. Já não tendo mais orientação socialista, o país asiático perdeu o posto de segundo maior país comunista do mundo para outra potência ascendente. E qual seria essa nação? O Brasil. Com a drástica guinada indiana, cabe a nós a medalha de prata nessa corrida sem disputa. Com a China em primeiro (comunista-capitalista), dificilmente chegaremos ao topo – o que, para os brasileiros, é uma vergonha, pois não apreciamos em nada o sabor do segundo degrau do pódio.


E como podemos dizer que não somos comunistas? As características fundamentais da nossa nação mostram um socialismo que daria inveja a Lênin: 

->Assistencialismo do Estado: o Brasil se caracteriza, cada vez mais, como um país assistencialista, no qual trabalho não é a razão da renda, ao contrário, o simples fato de estar abaixo da linha da pobreza já garante um benefício. Distribuição de renda, diriam alguns, porém uma distribuição de renda sem contrapartida (crianças na escola é obrigação de qualquer país, capitalista ou comunista) nada mais é do que ajuda da máquina governamental.

->Monopólio de mercado: As quatro maiores montadoras de automóveis no Brasil dominam cerca de 65% do mercado; o número de instituições bancárias diminui de tempos em tempos, criando grandes conglomerados financeiros; até um canal de televisão detém um monopólio da audiência, de certa forma. Embora na URSS o monopólio ficasse a cargo do governo totalmente, fica claro que, no Brasil, a situação está apenas em outras mãos.

->Monopólio governamental em determinadas áreas: apesar das privatizações feitas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo brasileiro ainda possui monopólio em pontos considerados estratégicos: organização da malha ferroviária (algo que a presidente tenta mudar), combustíveis, correspondências, infraestrutura portuária... E se tudo fosse vendido? Talvez tivéssemos magnatas como na Rússia, mas o Estado deixaria de agir como empresário.

->Intromissão do Estado: subida do dólar, aumento do preço da soja, criação de uma agência governamental de seguros para agir no mercado, criação de uma agência nacional de banda larga para fomentar a melhora e distribuição do serviço, uso dos bancos públicos para baixa de juros... A tão decantada autorregulação do mercado não existe no Brasil.

->Freio na concorrência externa: mesmo sendo estrangeiras, as montadoras de carros gozam de um protecionismo nacional ferrenho; nossos empresários recebem proteção do governo para uma indústria incapaz de concorrer de igual para igual com as estrangeiras; os agricultores têm sua produção comprada e estocada em caso de queda de preços no exterior.

Podemos ser o segundo maior país HOJE, mas todas essas ideias já vêm de longa data em nossa terra tupiniquim: Dom Pedro II já tomava atitudes protecionistas (como aumentar a emissão de papel-moeda para não quebrar bancos públicos mal gerenciados, fechar a concorrência pública a alguns, transformar bens privados em públicos).


Quem diria que o Brasil é comunista há tanto tempo? Eis um título que podemos pleitear: a nação socialista mais antiga da América. Nada de segundo maior. Mas, pelo andar da carruagem, não demora muito para sermos os primeiros... Sem protecionismo dos outros, é claro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um Sonho de Simplicidade, de Rubem Braga (do livro A Traição das Elegantes)

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?


Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.


A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.


Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.


Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?


Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo. mas deixasse a alma sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fragmento 2

Olhei o céu lindo naquele fim de tarde e me lembrei de você. Tudo o que se apegava a mim, naquele momento, era a poeira que vinha da janela. A tarde acabava, assim como o que sentia pela vida lá fora. Sempre odiei céu vermelho, pensei, ainda mais quando sou eu que pinto a cor mais escarlate possível.